| Poesias | |
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Zemaria Pinto é dos novos e já
respeitados poetas amazonenses. Ensaísta, dramaturgo, compositor e
professor de literatura, com três livros de poemas publicados,
gentilmente atendeu ao nosso convite para participar desta Antologia
Virtual a qual agregou mais valor ainda com os poemas abaixo
editados. Confira-os.
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| Quinteto | |
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Eu vi a moça atravessando a rua substantiva
e prenhe de sorrisos vestida
em primavera e acalantos. -
O ventre saliente, uma redoma onde
dormita o som e o sonho sonha.
A
moça aproximou-se e me beijou como
se beija um filho antes do sono e
sem dizer palavra as minhas mãos tomou
nas suas e me conduziu entre
detritos, gritos, correria. Os
edifícios se multiplicavam acima
das cabeças apressadas. O
ar escasso, a gente que passava, não
me deixavam perceber que a moça me
abandonava em meio ao burburinho. Em
minhas mãos um girassol vermelho substitui
as mãos que até aqui me
navegaram por entre os escombros da
cidade. De novo solitário recolho-me
à vigília de meus dias. Já
muitos girassóis tenho guardados no
ventre escuro onde acordado sonho cativo
de pacífica certeza: a
moça barriguda é uma invenção |
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| Exercício n. 5 | |
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Trago
nas mãos a lâmina dos anos que
passaram por mim tragando sonhos: sementes
de um passado sem memória, inúteis
fragmentos de silêncio. As
velhas alegrias disfarçadas tatuam
sombras em meu rosto pálido. Sorrio
amargo, o limo transparente refletido
nos dentes amarelos. Meus
olhos baços já não sonham luzes sob
o cantar monótono do vento: palavras
surdas nos meus lábios cegos. Antúrios
se renovam no meu peito e
de meus braços pendem sensitivas. Nos pés carrego o peso desses sonhos |
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| Exercício n. 7 | |
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palavras
são pedras frias à margem da
estrada que atravessa o automóvel são
peixes mortos de dominga feira cavalos
pastando plástico e aço palavras
são carcaças na corrente lavada
em mercúrio e lama são galos sem
manhã cachorros atropelados espelhos
estilhaçados disparos dispersos
cabe ao poeta cuidar que
o lixo em transubstância invente a
dura geometria do poema e
o barulho o mau cheiro a porcaria sobrepairem
no éter sublimados em
cor ritmo imagem e harmonia |
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| Exercício n. 13 (assim falava Zarathustra) | |
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Agora
vou dizer-vos sobre mim, ó
multidão destino e oceano. Estai
atenta para que as palavras fundam-se
em fogo e bronze na memória.
Dos
homens ocos já trilhei caminhos, plantei
sementes de noturnos sonhos, fiz-me
passagem, ponte, travessia: hoje
sou ontem e amanhã e sempre. Fui
peregrino, traduzi montanhas, levando
em mim o caos que poderia trazer
à luz a mais brilhante estrela. Amei
senão a alma transbordante e
a solidão dos poucos que souberam viver
a vida como se extinguindo. |
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| Exercício n. 20 | |
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os músculos noturnos retesados são
arcos
distendidos contra a luz que
o sol desenha em círculos concêntricos na
pele negrazul da altamanhã o
ritmo das asas são tambores frenéticos
rasgando o espaçotempo relâmpago
de hermes rutilante em
ônix e ébano forjado o
assombro em multidão multiplicado é
um frêmito lascivo em cada corpo e
um grito sufocado na garganta meu
peito não resiste ao chamamento e
um urro sai de mim feito uma lança NAGÔ ZOROBABÉLIA IORUBÁ |
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