Poesias
Vocalista da banda de rock Charlie Perfume, Tadeu de Melo Sarmento escreve poemas desde os 14 anos.

Pernambucano de origem, reside em Manaus há algum tempo. Foi influenciado por repentistas e pelo simbolismo rústico do Movimento Armorial, que tem entre seus representantes nomes como: Ariano Suassuna e Marcus Accioly.

Bebeu no rock rebelde de Jim Morrison, Renato Russo, Bob Dylan e hoje entende que sua produção poética ganhou mais originalidade.

 
Surrealista II
Em tempos outros, os bárbaros arrasaram cidades
em denúnica contra o que não era vigor
E a brisa trazia notícias de guerras
que renovavam a espécie
Dancei, em círculo de fogo. Ouvi canções

Tomei bebidas forjadas no aço, viajei em
navios que naufragaram
Nadei até as ilhas exploradas, traficando
sentimentos
com o coração grego dos aventureiros

Recebi o espírito dos xamãs. Entrei em
transe
Fui festejado nas tribos que me receberam
e tive visões que me elevaram à raça

Fumei ervas marroquinas, contraí sífilis e
cérebros decorados por vários olhos perplexos
Aprendi novas línguas e outras beijei
Condenei o acaso pelo abraço da demência

O arco dos sobreviventes, frequentado por
destemidos, onde come-se carne de hiena
A imperícia dos pródigos, cabeças canceladas pelo
machado. Queimo condenado. Minha alma
inquieta alça vôos ignorados
- tenho sentimentos omissos e letras para canção

Os tambores atentam para amadrugada
Tal que chega: imprevista, sangrenta, venenosa,
criativa. Um mosaico de perfumes bailando sanidades
visionárias

O caos se agrega à criação. A ordem
assassina o sonho. De manhã, a sede dos
homens é maior. E a minha sede é a sede do
mundo despertado, devorando as inocências
revestidas de moral

Em tempos outros, tais palavras arderiam como
a Revelação dos destinos
Impróprios para a recitação. Condenadas ao
escárnio das prateleiras. Proféticas,
obscenas, um convite ao toque

Quem me dera roma antiga reviver, Alexandria
dopada de saberes sedentos. Uma nova tribo
de bárbaros crniceiros, quebrando ossos em presas,
suando fétidas carnes, em vigor de pêlo nu no
descampado

Quem me dera inventar novas danças, forjar espadas
para a guerra, beber vinho barato
E cuspir para o alto! Meu dente cariado e uma
vontadde de correr sem parar

- os assassinos do mago caminham pelo mundo

Uma nova época desponta para meus olhos
Da nudez sagrada, do método escolhido, da nova
palavra; uma selvagem poesia e bruta literatura
A volta ao tribalismo: assaremos gado, beberemos
cerveja e fumaremos até os dentes amarelarem

 

 
Originais I
Adormeci manhãs e retinas
frio como cálculos
Planejei assassinatos e assaltos
em veraneios

Existo onde meu pensamento
se conduz
Em bailes olfativos fartados
de pescados humanos

Em chás de balzaquianas
enterradas no ócio apelativo

Em chamas acanhadas
pelo sexo liberto

Em chucas de vermelhas
pétalas e pálpebras

Em toques que anunciam
o delito

 

 
Manaus à meu ver
Descanso meus olhos na janela dos carros
Hábito a orfandade das ruas e o silêncio
dos bueiros escrupulosos
E escrevo teu nome em alcatrão nas pisadas
da Getúlio Vargas

Salvo bolsos vazios, tenho um cérebro opinando
em câimbras endêmicas
E escuto ao longe um jazz de Veneno em
litros de conhaque e filtros de Carlton

Trago a fumaça da cidade e a sedução das
prostitutas à margem do Teatro Amazonas

tomo um táxi (e mais uma garrafa) nas mesas
das calçadas arqueadas

Meu rumo é o 409. sou muito urbano para
comer pastel na esquina

Esquanto silencio, o concreto arma o sono
nos postes de luz
Silencio. Mas contorno meus lábios
com o grafite dos muros
 

 

 
Virgulinas esperanças
Sofro de doença incurável
não aceito a miséria

Quero abraçar o Recife
com os breços de Quitéria

Repentistas das praias cantando
em troca de troco e pilhéria

Sofro de doença incurável
não aceito o destino

Por mais que sejam Cangaceiros
os sonhos de um menino

Cavalos de peitos rubros
todos vários Virgulino

 

 
Tu
Toda tua costa nua é densidade e privilégio
no sol que no teu quarto adentra

Todo teu corpo é continente e silhueta
no sil que no teu quarto adentra

Toda tua pele é algodão em poros diluídos
no sol que no teu quarto adentra

Te leio em braile, desenfreado amante
no sol que no teu quarto adentra

Te tenho atônita, arfantes braços
no sol que no teu quarto adentra

Te elevo em toques, e gozo junto
no sol que no teu quarto adentra

São 7:30 e ainda te quero
no sol que no teu quarto adentra

 
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