Poesias
Romyne Novoa é amazonense. Natural de Manaus, tem o jornalismo como profissão e a literatura como paixão. Participa com frequência de saraus e recitais poéticos.

Ativa e interessada quando o assunto é Literatura, Romyne também é coordenadora da Vanguarda Cultural, entidade que visa divulgar nos espaços culturais os trabalhos dos novos poetas e artistas amazonenses.  

 
Flechas
Calçadas e paralelepípedos seguem pelo passeio
de portos que se abrem ao despojo de amigos
Espectros falam e dançam
Não há mais festa no cabaré, mas ainda se sente
o cheiro de dinheiro queimando enquanto
descortina-se o cenário do funeral de Manaus...

Os sinos dobram na igreja do santo revolucionário
que agoniza as dores das flechas
numa expressão cansada de luta e revolta,
sendo ele então o primeiro a assistir ao último filme
de um diretor falido...

E o féretro prossegue timidamente pela praça
Somente os pombos o acompanham
O vento apagou as velas levantando a poeira
que se esconde sutil por entre os trilhos asfaltados
Como se o público do teatro deixasse os camarotes para,
chorando, participar do adeus a um ente querido...

Agora, a cúpula esconde a noite em meio
ao constraste do caos
O cheira-cola, o travesti e a prostitua choram
como quem ri
E tudo segue sua dialética, mesmo tendo
que comer do outro, vivo, as vísceras

Sinos dobram dolorosamente
Poucas mãos carregam a madeira mórbida
E as lágrimas que escorrem são somente as
das velas que, apiedadas, voltaram a acender
Mas até que um soldado apareça com a revolução
inspirado naquele que olha a igreja,
ainda haverá quem escarre na lápide contra a
ressurreição, mesmo que se troque a dieta das
vísceras pela das flores...

 

 
Portal do Inferno
A casa é o portal!
AV. Joaquim Nabuco
Nas paredes gastas, esconde-se a poeira
de dias passados
Ratos habitam o escuro
Meninos acomodam papelões
Pelas frestas, a lua entra
Sono

Carros pela rua
Giram luzes
Vermelho, azul...
Dobradiças rangem
Cai a porta
A lua entra no salão
Meninos intimidam-se
Meninas, sob o porrete, aceitam
Escambo
O corpo e a droga
A casa é o portal

 

 
Sem Nome
Onde está cravado o teu nome?
- No tempo
Ela me diz por entre a cruz
e o jardim de sua casa
Sorri, menina, o teu último sorriso
Que lápide abrigará teu nome?
Que nome teu ficará no tempo?
Dorme
Sonha
Voa com os pássaros
E canta
Canta tua voz sem nome
 
 

 
Manancial
Não falo em distâncias,
mas do corpo e sua fome

Detenho-me frágil, tácita
na ausência que me sorve as forças

Busco então o meu regozijo
em testemunhas inanimadas
constantes lembranças de ti

A virilidade do teu peito a encontrar-me
num cálido, único abraço
entropece os movimentos
exaurindo frenesi
a permitir a avidez dos lábios que,
loucos, querem me consumir

Nua, em tua voracidde
envolvo-me em recíproca dependência
de íntimas carícias,
de sibilosas confidências

Confundo-me no fechar de olhos
gozando na relação entre mim e o céu

Em sinal de extrema idolatria
do pecador e seu santo adorado
sinto tua boca beijar-me os pés
e orgulho-me de tua veneração
confessado ser tu
singular alimento do meu sexo

Não falo em saudades,
mas do corpo e seu vício

Detenho-me covarde, suscetível,
na súplica por meu prazer
de ter na salubridade de tua carne
meu manancial de subordinação

 

 
Mamoeiro
"Vestido de flores
dança ao som do vento
como um deus hindu
"

Era um caminho simples
Aos poucos, o vento trouxe o canto
Na sacola, o perfume e as flores do mamoeiro

No caminho, as flores
Um andarilho levou o perfume ao vento
Na sacola, foi-se o canto

 
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