Poesias
Fazia algum tempo que eu procurava Regina Melo para participar desta antologia. Não desisti. Era para ela ter entrado sábado passado. Contratempos, enfim, não deixaram que isso acontecesse. Mas agora vocês poderão ver que a minha busca não foi em vão. 

Regina Melo é jornalista e pós-graduada em Design, Propaganda e Marketing. Desde 1980 tem se envolvido com projetos culturais. Está com um livro de prosa prestes a ser editado. Já publicou alguns de poemas, como o Estação do Nada, e emplacou algumas letras de músicas também. Trata-se de uma poeta que vem agregar mais valor a esta antologia.

 
Criação do homem
E o homem surgiu
E no ápice do seu surgimento
Inventou Deus
À sua imagem e semelhança
 
Apoiado em Deus
O homem explicou a sua existência
Criou seus mitos
Inventou o pecado
Inventou a culpa
Inventou o perdão
 
Inventou o tempo
Descobriu o medo
e se assustou com a morte
 
Em nome de Deus
Inventou as leis
Para poucos se beneficiarem dela
 
Descobriu o prazer
e inventou o egoísmo
 
Mas não inventou a História
Descobriu a História
Não a História inteira
Mas, parte dela
 
E, se apossando de parte da história
Inventou a Mentira
Inventou a Ilusão
Inventou a Invenção
 
Criou a técnica para aprofundar
o conhecimento
 
Descobriu o caos
para se orientar
 
Inventou a Arte para melhor
se compreender
 
Tantos progressos, a troco de quê?
 
Sua ação inconsequente
corrompe a História
Dilacera a memória
Reportada a pedaços de conhecimentos dispersos
que tenta em vão juntá-los
 
Partes que nunca vão se encontrar
O homem metade
Pedaço
Dividido
O homem repartido
Bipartido
 
Destruidor de sonhos
Predador da terra
Seu paraíso
Sua vida
 
O homem não inventou a vida
A vida inventou o homem
Mas, o homem quer ser maior que a vida
por isso a destrói
 

 
Trançada
O ruído da janela
da casa
 
No centro, o corpo
- a comida -
 
No dope, o prazer,
- a ferida -
 
No tempo, o terror,
- a família -
 
Na ânsia que dista
- a distância -
 
No véu da fachada
- a lembrança -
 
No prazer, o fazer,
- a esperança -
 
A tranca, o troço,
- a verdade -
 
Amada, o adeus,
- a vontade mais dura!
 

 
Semente
Embriaguei meu verso
nas orgias do meu corpo
 
Nasceram pétalas brancas
da madrugada
 
No hálito da manhã
desceram seivas de sal...
 
...embriaguei meu poema de amor!
 

 
O home que passa
Pode passar
se passar, somente, for necessário
 
Se bastar passar
Pode passar adiante
Que o homem que passa
Não passa somente!
 

 
A arte de trair o amor mais bonito
Lágrimas sobre o teu olhar
Cogumelos dançam
Nas madrugadas
 
A mente brinca
com margaridas
 
E o nobre cravo
embriaga-se de prazer
ao ver andorinhas
devorarem o girassol
coberto de uvas
 
Arregaçadas
as flores despem-se ao vento
Caminham pela imensidão
do tempo
levadas pela correnteza
do lago azul
 
Apagado ficou o sol
nesse instante,
ao saber-se vivo
sem o vale pelo de flores
 
Perdão,
amor,
se o meu gesto te trair no espelho!
   
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