Poesias
Rosa Clement nasceu em Manaus, AM. Trabalha no INPA com banco de dados e faz traduções. Estudou Ciências da Computação na Universidade do Amazonas, sem concluir o curso. 

Atualmente estuda na UNIP, no curso de Letras - Tradutor Oficial e Interprete. Publicou diversos poemas em algumas antologias brasileiras e americanas e em sites da Internet, posto que escreve poemas em português e inglês.

 
Primavera
Eu ia pelos caminhos
e caía a primavera
em minha terra tropical:
narcisos enfeitavam os chapéus,
as rosas, os quintais.
Zinias, dálias, margaridas
despetalavam-se no vento.
Sempre-vivas derramavam-se
das sacadas de cimento.

Perfume de bem-me-queres
exalavam em brancas casas.
Tocavam-se as campânulas
e ramos de amor perfeito
na profusão de gerânios,
declaravam sentimentos.

Nas igrejas, madresilvas
davam graça as orações.
Nas paciências,  o orvalho,
com um tom dos mais brilhantes,
desenhava tortos terços
e pelas ruas coloridas
mariposas, borboletas
confundiam endereços.

Todos eram jardineiros,
e ao choro dos regadores,
exibiam nas calçadas
os sorrisos mais vistosos,
as frases mais delicadas.

Mas fugia a primavera
com as flores desbotadas
e as faces mais alegres,
na hera de doce sonho.
O sol ardente chegava
e a realeza do verde
com sombras cinzas de folhas
pelos meus rios reinava.

 

 
Teus olhos
De tanto olhar a mata,
em teus olhos azuis brotou o verde,
verões de verde, folhagens tropicais,
cristalinidade de amor
refletindo em teu país.

Eu vi a cor de teus olhos mudando,
pinturas naturais:
cenas raras, flores desabrochando,
casulos em abandono,
e eu seguindo sempre amando
teus olhos-camaleão...
Nem teus cabelos embranqueciam tanto
quanto teus olhos enverdeciam.

Mas era para tí que a mata
transbordava magia,
fluia encantos em seu perfume.
Ela, bruxa com voz de mundo
te levava, te embevecia.
Quando voltavas, vinhas cheio de raízes,
trazendo hábitos de terra.

Armei jangada,
mas perdí seu local exato.
Invoquei o mar, os seus azuis,
e olhei dentro de teus olhos
para ver suas meninas.
Então compreendi
que a função mágica dos oceanos
somente azula corações.
 

 
Chuva forte
Agora a chuva me cerca,
lança suas grandes gotas
por entre  as folhas da árvore.
São gotas e são palavras úmidas,
palavras tantas,
que aquela pulpa ainda não entende
mas que tento decifrar.

A tarde é casulo desfeito,
aborta os sons das ruas,
desfaz a terra que vai mole e barrenta.
É terra que foge em canto próprio,
que vai embora nas águas,
para nunca mais voltar.

Eu também quero ir.
"Vai", "vai", dizem as gotas gigantes...
É preciso decidir.
Para que preservar-me
da carícia das águas?
Ë melhor romper o medo,
sentir a chuva, senti-la
transformada na boca molhada
de um grande amor...
 

 
Poema para minha máquina de lavar
Fora de suas fôrmas,
vestidos, lençóis cansados
vão caindo amontoados.
Todos são bem recebidos
por minha maior amiga,
dona de planos e linhas
e volumosa rainha
do território do lavabo.

Dança a água com o sabão
sacudindo as espumas,
serviçais da profissão.
Tecidos vão engatando
em dança cadenciada
de um mexido latino.

As águas lavam e levam
todos meus cheiros de ontem
por canais desconhecidos
e vão se juntar às águas,
e aos odores do mundo,
em algum rio adormecido.
Fica a rainha de ferro,
reinando só em seu canto,
sempre cheirando a perfume
de flores vindas dos campos.
 

 
Viagem
Às vezes penso em terras já distantes
e esta saudade senta do meu lado,
faz-me lembrar daquele mar de antes,
que embala os meus ouvidos, do passado.

Quero voltar rever velhos caminhos
das praias com as filas de coqueiros,
só para olhar, amar o mar marinho,
ao som de eukulelis* feiticeiros.

Abro a janela e só meu pensamento
vai encontrar o que ficou de mim
por onde as ondas sabem mais do vento
e primaveras cabem em um jardim.
Tanta melancolia assim me invade,
só porque fico ouvindo esta saudade.
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