| Po(her)esias | |
| Os poemas da série Poe(here)sias vão em várias direções, sem fórmula, sem fôrmas, sem necessariamente terem que chegar a lugar algum. Foram escritos em tempos diferentes nos últimos 10 anos. Como não sou poeta nem persigo reconhecimento nesta área, não me importei com efeitos estéticos ou de conteúdo ao produzi-los. Fi-los porque...enfim. Mas que isso não passe a impressão de que para mim poesia não é coisa séria. Pelo contrário. Entendo, no entanto, que não deve ser séria de mais a ponto de deixar emburrado quem dela pretende se aproximar. Ou não seria nada disso? | |
| Já dizia Greg | |
| Optei-me, Juliana Por mim, optei Cansei! Cantei essa
bola que beirava Escapei. Ex-catre teu sou Decaptei o teu desamor e Caravelas às vessas.
Travessas Tropeçou. E trapaçeou na
maçã Entristece, sei. Reprisei
os bons e maus momentos |
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| Já dizia Hurubhurro | |
| Papagaio daqui não sabe
falar não aprendeu na infância, moço a lição do bê-a-bá É touro brabo amarrado, Papagaio tali, mas não
sabe se estar O que sente não importa Papagaio, tadinho, não se
cansa de apanhar, |
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| Já dizia Baudrillard | |
| massa, substantivo
abstrato massa signo insignificante massa na boca do alto-falante massa eco de palanque absorve tudo mas não reflete nada massa não caminha nem está parada massa
como pastel massa amassada massa como arrastão massa objeto inerte e
silenciado massa buraco negro dos massa referente sem
referencial massa como existência massa equivalente
terrorismo |
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| A Pasta | |
| A pasta não é a mesma.
A madeira substitui o couro Tampouco repousa sobre a mesa; é mesa repousada sobre pernas mancas. Do lado, um tamborete. Ou um flanco
encostado em algo Ambulante, abuso de
paciência. Ritual de obediência ao tempo, Afinal, a pasta não é a
mesma. O couro também é substituído Porque é tudo da Massa,
legítima dor |
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| Sem Nem | |
| Sem regras. Sem tréguas.
Sem léguas. Nada de distância, amor. A inconstância é matriarca da existência Resistência tem quem pode suportar a dor e a alegria de amar. Sem necessariamente queixar-se ou vangloriar-se de ter vencido o vencedor. No fundo, a paixão é daltônica Sem nem. Sem não. Sem
talvez Reparo. Reparas, minha
flor. Gostamos mesmo |
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| País Desmiolado | |
| Estão nascendo... filhos desprotegidos de pais desnaturados de mães, filhas de outras mães solteiras de um país desgovernado Estão crescendo... Estão sofrendo... Estão morrendo... Tudo isso, creiam, em ritmo neoliberado |
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| Amor Mitológico | |
| Vai ver que foi Rudá,
mesmo, quem nos cruzou o caminho Tudo bem que Guaraci estava lindo no brozeado de tua pele Fresquinha E que a magia de Jaci - na ocasião cairé ou catité, não me recordo refletida em ti, refletia em mim a alegria que não tardaria a vir: em revoadas de Uirapurus, Anhanguaras,Iaras e nas macacadas de Saci E vivi E vivo E viva essa amor de Índio, enquanto Curupiras, Mapinguaris, Juruparis e Caiporas nos protegerem |
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| Dilúvio | |
| Que venha o dilúvio - não me importo E não me falem em arco-íris Chega Cansa Que a água se faça senhora e venha - boa, podre, preta, branca, limpa, suja, forte, fraca, cheirosa ou inodora, de qualquer cor e até incolor Abra as comportas e venha Isso mesmo, entorne-se e venha, dilúvio Qual tralha qual o quê? Não! Ninguém pescará nada Nadar? Debalde Cão, traga-me o dilúvio-irmão - como se fora Caim Pobre de mim que não sou Noé No, és? Veremos quando a água chegar |
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| Ai!ds | |
| Quedou-se Quedaram-se os tabus Agrupou-se Agruparam-se os desejos Variou-se Variaram-se as viradas e viagens Ufa! Fuá! E a liberdade-libélula se nos apresentou emagrecida, difícil de ser interpelada Melhor seria que não tivéssemos corpo Apenas o espírito e o gosto Para que não viéssemos a sentir ódio do amor, por caso, molestado |
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| Estadofálico | |
| Aos olhos do Estado, que é cego, surdo, mudo e fálico, cuidado onde vais sentar o rabo |
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| Assalariado | |
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| Cio | |
| Num canto da boca tu
passas a língua Mesmo a distância sinto roçá-la em meu corpo Olho teu rosto, estás a sorrir Tento beijar-te, mas foges de mim Cadela no cio... |
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| Circo furado | |
| A vida é um circo furado onde as pessoas aplaudem o meu sofrimento tenho fome tenho frio quero água... Quero
a parte que me toca nesse mundo Sou filho das ruas |
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| Harmonia | |
| Se a harmonia não fluir
nesta poesia Releve que a vida é vaca tonta produto da sincronia dos carmas fardas farsas hiprocrisias Então,
se a harmonia aqui é sórdida |
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| Universidade | |
| Universidade? Hum... Une? Verso de idades - umas avançadas, outras em plena puberdade Universidade? Universidade? |
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| O Zé das ruas | |
| Meu nome é zé órfão de pai e mãe a minha casa são as ruas em qualquer delas estou bem Meu nome é zé Meu nome é zé & vago nas ruas Meu nome é Rua |
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| Depois das oito | |
| Sem sal Sem açúcar Quero teu corpo, depois das oito Mas só se você estiver a fim Sem álcool Perto das nove mudo tudo Te quero mais |
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| Tão bom | |
| Tão bom Tão pouco Tão bonito Tão louco Tão forte Tão dengoso Tão real Tão gostoso O amor... Eu, particularmente, prefiro à prestação - com carinho e tesão |
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| Pedregulho | |
| Então... sejamos pedra pega eu pedra, tu? Digamos que sim pedra eu pego, tu? Sim... sejamos pedregulhos entulhos pregados pedrados sejamos caminhos de pedra pedras no caminho pegados no ninho pegadinhos |
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| Insanos | |
| Éramos três librianos Ou melhor, três fulanos Quer dizer, dois e um beltrano Digo, um dois sicranos Engano, três insanos |
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| Tempo | |
| Tempo pra isso Tempo pr'aquilo Tempo de paz Tempo de grilos Tempo de dar Tempo de receber Tempo de acordar Tempo de adormecer Tempo de plantar Tempo de colher Tempo... São tantos os tempos |
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| Insônia | |
| O apito da molecada
jogando bola ao cair da tarde Confunde-me na madrugada com o apito do guarda Prolonga-se com o badalar do sino da igreja São Sebastião Joga os meus ouvidos num silêncio infinito De infinita solidão Exacerba o tédio As minhas pálpebras se tocam, mas não se copulam Os meus pensamentos viajam em labirintos escuros Os nervos sobem à flor da pele Machucam a região do globo ocular Dá-me uma vontade louca de desmaiar Só pra não ver o Sol nascer... de novo |
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| Draconiano | |
| Ouço o silêncio do teu
grito ecoando, violentamente, por todo o meu ser E tomo da tua mágoa, amarga, leite condensado Calado, refugiu-me no anoitecer Morcego, vesgo |
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| Benjamin | |
| Benjamin Beijo, sim! Essa terrinha trigueira Esse chão de fronteira Meu pedaço tupiniquim Se o Sol cai no Javari Ora...te que quero, sim! Cunhantã, menina-flor Benjamin |
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| Eu | |
| Existe um cara que me
atormenta - chora, implora, lamenta Outro que vai por aí afora - disfarça, faz graça, namora Um outro que eu conheço muito pouco - mesmo sendo normal o chamam de louco Esse cara sou eu! |
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| L(í)ngua | |
| Minha língua Ah, minha íngua Perdida entre o cheiro e o desejo Quando te vejo Quando te beijo Quando te deixo Minha íngua Ah, minha língua Se enche de dor e mais Quando te vais Quando não voltas mais Quando te quero mais Minha língua Ah, minha íngua |
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| Signos | |
| Palanque - mundo feito de mímicos e sínicos Favela - submundo de dor e miséria Estado - mundo de saf e safados Cidadão - indivíduo na contramão |
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| Sobressalto | |
| Vivia sobressaltado Os olhos, degregados, insistiam em fixar imagens de um mundo em permanente asfixia |
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| Poesia de Mãe | |
| Ah, não... De novo na rua, marcelo? Pega ele, cachorro! Meu Deus... Marcelo, filhinho, olha o cão Passa! Passa! Passa, cão filho da mãe |
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| Amor Brilux | |
| Quero morre de boca - na boca Quero morrer em coma - na lama Quero morrer de corpo e alma - na calma Quero morrer em chama que não se apaga - nunca! Inflama Em flâmula Quero morrer em flama Em transe do mais puro amor Brilux |
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| Simplicidade | |
| Eu ando mesmo descalço - e no meu encalço, às vezes, a minha sombra. Eu ando livre, só assim se vive e vivo a vida, pintada de cores vivas. E tenho a paz, banhada de sonhos bons, tons, batons, sons, eu tenho o beijo. O meu caminho é largo, o meu passo é curto, devagar meu corpo vai - cai, não cai, cai não E tem mais: a alegria da abundância e a esperança em mim se fazem Moço, nem queira saber, o meu mundo é pobre, nele só vive nobre de amores invernais |
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| Não sei | |
| Não sei Nem queira saber de mim Não sabes Nem sei porque era assim Beijou-me Assanhou-me o corpo Afagou-me o rosto Pra completar, disse-me que estava a fim Trocou-me o nome Mostrou-me que o homem e o lobisomem Estão próximos, sim Então me largou Assim como me beijara Escapuliu de mim E eu queria, enfim O homem e o lobisomem Tudo em mim |
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| Declaração | |
| Que a solidão seja um
breve espaço entre dois amores - nada mais! Na minha mão a linha da vida é curta - dizem! Que o nosso amor caminha na mesm direção - sem ilusão não se vai a lugar algum! Se o teu sorriso fosse comum, não haveria porque me encantar Se o teu olhar fosse mais, por que eu deveria notar? Lindo o beija-flor, né? Então, imagina-o sem a flor - beija-me! |
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| Suicida | |
| Na madrugada um
flamenguista atravessava a Djalma Batista, vitorioso. Mas ders Tudo que ele queria naquele momento era que um carro lhe arremessasse para o outro lado da avenida ...preferencialmente morto. |
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| Roleta-russa | |
| estamos PERDIDOS estamos AFLITOS com MEDO do mundo que CRIAMOS acendam as VELAS quando forem pro QUARTO-CAIXÃO não tirem a CAMISA em caso de amor esta é a CARA da geração que hoje somos esta é a COLA que no mundo inteiro ESPALHOU--SE (d)aideticamente... mas VIVER é também isso: CORRER PERIGO e CORRER PERIGO é viver AQUI a agulha que cessa a tua DOR pode ser a mesma que me causará PAVOR estás lembrado da hora em que NASCESTES? estavas AFLITO ficastes PERDIDO sentistes HORROR MORRER não é DIFERENTE |
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| O mato como meio | |
| Lá no meio do mato o cheiro do café convida o compadre atraca a comadre e todos gozam a vida Curumins fazem festa no chão A noite cai como um véu Lá no meio do mato |
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| Tudo é você | |
| A lua é você Deus é aquilo em que acreditas Crença, alimento do espírito Grita, logo existes O
sol é você A água é você A terra é você |
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| Masturbação | |
| Meu leito Meu deleito de introspecção. Me deito Me ajeito em meio à escuridão Acho você! Lembro o teu rosto |
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| Música del amor | |
| De momentos faremos
nuestra música Nosso ais ditarão el compasso Passo a passo la harmonia inteira De beijos, carinhos e sussurros
serão De pé |
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| Nós, os loucos | |
| Esconder é o verbo
A orientação é minha - ontem incerta harmonia e hoje concreta agonia O verbo continua sendo esconder Escondam-se Afinal, nós, os loucos,
somos assim mesmos: Neurose Por favor, escondam-se
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| Poesia | |
| Algum, desavisado,
perguntará: - Tem poesia na fumaça de um cigarro? Outro, metido a inteirado, responderá: - Se o cigarro for uma fuga para onde não se sabe. Terá sido como uma lágrima ou uma raiva nas vezes que alguém amou. E o desavisado: - Sim, mas onde a poesia da fumaça? E o inteirado: - Olha que só fui lá pelas tantas vezes que fomos felizes, juntos. Agora, não tem mais sentido. Dispenso o cinzeiro e o lenço. |
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| Roleta-russa | |
| Sim! Quem não sentiria medo? A comida indigesta nunca esteve tão farta Quem se atreve a meter as mãos pelas pernas; da mulata, da loira, da morena, da gorda, da magra... Qual delas trará no vão das
cordilheiras infernais a |
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