Poesias
Laura Jane é amazonense, nascida em Manaus. Professora do Departamento de Comunicação da Universidade do Amazonas, tem habilitação em Relações Públicas e Mestre em Ciências Ambientais  também pela UA.

Tem como hábito regular a leitura. Escreve desde criança. No entanto, os poemas aqui publicados são inédito. O que é ótimo para a função que tem esse nosso projeto.

 
Novomundonet
Sou "pós-moderno",
e enquanto é verão lá fora,
eu aqui dentro hiberno.

Meus olhos presos,
num olhar hipnótico,
brilho patético,
navegam perdidos,
no mar da internet.

Tenho tudo,
só preciso escolher
e clicar.
Num átimo de instante,
vou daqui
para qualquer lugar.

Cidadão planetário,
vivo nesse mundo,
cada vez mais solitário.
Iludido,
(inter)necido,
pela "facilifutilidade",
desse viver "inter-midiático",
que me rouba a sanidade,
ausentando-me de mim,
do outro e de todos,
tão interligados
e tão a sós,
nessa imensa teia,
de frágeis nós.

Pela tela,
passaporte incondicional,
faço compras,
arrumo amigos,
namoro, transo ...
e gozo,
orgasmo virtual!

E enquanto é verão lá fora,
e eu aqui dentro hiberno,
a vida, pela janela,
passa,
traspassa-me.
 

 
Portador HIV
Port(a)dor,
porta os preconceitos.
Os males do mundo,
suporta,
carrega lembranças,
porta nos olhos,
o brilho do medo,
a incerteza de outro dia,
mais outros, quantos enfim?

Transporta e transparece no olhar,
a paz de um mago cansado,
que com os olhos no futuro,
antecede um fim quase anunciado.

Na boca, morre um sorriso,
assim como um a um,
morrem os dias, nublados,
lentamente pingados,
de um tempo que é curto, contado.

Também porta a esperança,
inconformada, teimosa,
como frágil chama,
que tremula ao vento,
borboleta suave,
passageira da vida
por um vão momento.

   
Para ver o outro
No rosto do outro
que não vejo,
há o homem simples,
o cidadão comum,
que quando passa
finjo que não percebo,
porque perceber,
é re(conhecer),
é transcender
o mero olhar,
é cumpliciar.

No olhar do outro,
que o meu evita,
nesse passar sem perceber,
nesse fingir pra não sofrer,
por covardia, omissão,
conformismo, (re)negação,
há um mundo de histórias,
palavras em (re)construção,
processos de vida,
(re)criação.

Mas, para ver o outro,
é preciso bem pouco,
basta que se permita
aflorar à cara,
os íntimos olhos da alma.

   
Teu olhar
I - Teu olhar,
transbordante como lua cheia,
minha noite escura prateia.

II - Frutamor
Na verde folhagem do teu olhar,
fiz-me semente,
transbordei em frutos
e me deixei madurar.

III-  Na cálida noite,
que te transborda do olhar,
atei minha rede
e me embalei a sonhar...

 
Olhos de rio
Águas de rio
em teu olhar,
banzeiro macio,
na beira vem brincar.

Sol nascente, luz diurna,
que sobre o rio se faz,
bruma noturna,
nos teus olhos se desfaz.

Sol poente
no olhar,
rio incandescente,
noite a chegar.

Faz silêncio,
Lua refletida no olhar,
cala-se o rio,
transbordando luar.

Se nesse rio me banho,
e nas águas do teu corpo,
suave a nadar me ponho,
nem percebo que me afogo,
no afago do teu olhar.

Se teus olhos os meus invadem,
sinto tremores e arrepios,
nossas águas, então se fundem,
formando um mesmo rio.

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