Poesias
Gisele Serejo é amazonense. Mais uma das poetas aqui editadas com exclusividade.

Os seus cinco poemas que agora fazem parte desta que é a Primeira Antologia Virtual com os Novos Poetas Amazonenses, até então estavam engavetados ou, quando muito, tinham sido apresentados a alguns amigos. Deixemos que eles mesmos se apresentem.

 
Jardim Desordenado
Caramanchão que Neruda entrou
Impregnados de significados
estavam lá objetos fincados
 

Bote de algum naufrágio
Amapolas, lírios e heras

perdidos em sonho de quimera
jaziam naquele lugar
 

Pablito, teu jardim exala
um cheiro forte de jasmim
que em meu ser toca inebriante
o querer de dar ao mundo
o
direito de entrar, enfim  

Jardim do mundo
Jardim hermético
Poesia infinda
de Pablo Neruda
 

Caramanchão que suga
fundo o querer de entrar
dos amantes
 

E ao olhar o ocaso
fico a pensar no jardim abandonado

cheio de ciprestes prestes a dar
 

Caramanhão coberto
de trepadeiras ansiosas

cobrindo as amapolas
e heras daquele lugar
 

Jardim desordenado
no qual nunca entrei

tão-somento desejei lá
contigo estar

talvez na mente jaz de
uma adolescente

 

 
Cunhatã
Na proa do casco põe-se a
cunhantã a remar e levar seus

pequenos sonhos de um dia encontrar

o elo perdido do amor escondido

que um dia há de achar
 

Cunhantã rema, rema...
vai ao longe pelos igapós e lagos
não importa os sacrifícios, pois pra ela

é um artifício a vida encantar
 

- Cunhã, chama a mãe. - Vem cá roçar,
torrar a farinha pra modo da vida não esperar. Cuida,
cunhã, vem trabaiá
 

e a cunhantã segue seu rumo
pacato e tranquilo, e põe-se
a remar, remar... 


 
Poronga
Poronga vem iluminar
a alma que jaz
no escuro do teu olhar
 

Poronga vem guarnecer
a família desprovida
do encanto que é viver
 

Poronga, poronga
queima firme, queima forte

dando alento a quem tem frio

e anima o leito da morte
 

Poronga não se apague
porque és se não a esperança
que apraz a vida do ribeirinho-rapaz

a espera do caminho, que o leve

a algo mais


 
Boto
Vem...e se lança no rio ao sabor
da maromba
Corre, corre...sempre encontra tantos

rios para nadar
Que boto estranho! dizem uns

Enfeitiça as cunhãs, amodo de dar desculpas

pras presepeiras que se afastam
do terreiro e vão pareciar

Êta boto danado! É rosa, o afoito

clandestino do lugar

E logo encontra pra se acalmar uma linha

e forte cabocla

que pelo seu bico se deixa levar
Esse é o boto arteiro que

a tantos inspira

até um regente, que somente alcunha ficou:

a de boto navegador
 

 
Novo Airão
Encantada morada que aos forasteiros abriga
rompe o dia no meu peito

que transborda meio que eleito

de paixão por ti, adorada
 

Terra eleita
transborda de emoção em meu peito, desfolhada!
acolhe aos forasteiros que um dia

conhecestes em teu leito, encantada!
 

Encantada morada, cravada no meio da floresta
um dia ausentada

fui buscar-te de novo e fazer em mim, devota, enamorada  

Oh, doce terra
purpúrea e bela

a lua não tardou

a pousar em ti o brilho

que nela encerra
 

Novo Airão
irás conhecer com paixão
nos anos que virão
um forte, belo e simples cavalheiro

que irá salvar-te por inteiro

das garras da corrupção

saberás!

é moço, rico, nobre de coração

que te cobre desde já com teu manto santo
Novo Airão  

Luis, é o nome seu
que encantou aos olhos teus

e completou Carlos

tornando-se Luiz Carlos
homem nobre tão afeito

que deu-se de direito, tornar-se

teu eleito
Oh, encantada Novo Airão
 

E de tão encantada
com ele que em "Novo"
se chamou
a bela flor Airão, novamente
aquela que um dia, na mesma sesmaria

meu coração forasteiro

transbordou de alegria  

 
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