Poesias

Ferreira de Castro

Página Final

 
Tiro ao alvo
Assim parado,
de pernas abertas,
pra diminuir a estatura,
e de alvo na cabeça
era pim-pam-pum de feira
exposto à irrasão do público. tinha
um sorriso alvar sobre
a negridão da boca sem dentes e
os seus olhos muitos brancos,
todas as linhas do seu rosto,
dir-se-iam pintadas em pano
que vestisse um fantoche de palha.
 

Volúpia
E,
mendigo de amor,
desvairado
e desprezível,
saiu,
pé ante pé,
pra a noite do quintal. Roçou de
passagem, o alecrim,
rastejou junto aos tajás e,
de gatinhas, depois, meteu-se debaixo da casa.
 

Cardume
Os "gaiolas" subiam durante
todo o ano. E, com eles,
iam subindo, também, cardumes impenetráveis de peixes
variadíssimos. Agrupavam-se por famílias
e fervilhavam à tona da água,
dias e dias,
os lombitos luzídios. Vinham
de longe e iam para mais longe
ainda, a escolher,
nas cabeceiras,
um abrigo propício.

Violência
Estava nu,
no zarcão diluído
da sua cor, desde a ponta dos
pés à cabeça de talhe enérgico
_ e tudo nele tinha proporções
de fecundador de humanidade
primitiva.

Cinzas
Quando chegasse a manhã,
derramando a sua inesgotável cornucópia
a luz dos trópicos,
haveria ali apenas um montão
de cinzas,
que o vento
em breve,
dispersaria...
 
 
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