Poesias
Radicada em Manaus há oito anos, Elisângela Nobre vem fazendo poemas ultimamente priorizando a carpintaria do texto.

Os poemas que estamos editando aqui são de uma fase por ela considerada  "mais leve". Outros são, como ela mesma disse, viscerais.

Carioca de nascença, Elisângela é, sem dúvida, mais uma grata e grande surpresa desta Antologia.  

 
Poema da Espera
Espera
Que ainda há de chover o cântaro nesta madrugada
- desvairada
Receitas mágicas devem saber à solidão
Imperatriz-marfim a lua sobe...
Outono atômico num dia qualquer
Servirá de pára-quedas ao
enxame de estrelas
- vãs
E, se por dez anos a flor-miragem não se abrir...
Espera pela chuva seca da manhã
 

 
Alter-ego
"Olhei até ficar cansado de ver os meus olhos no espelho" (Flores, Titãs)

Sonâmbulas luminárias
Se arriscam ao chão
Traduzem-se sob a forma
de escuridão
Ponteiros amarelos assoviam
Horas que vão tarde
Pálpebras persistem apetecidas
nas brumas do OUTRO
Paredes deformadas
distanciam o segredo: decifrado o outro lado

 

 
Entre o desejo e o mundo
Solidão de caramujos
de passagem às rãs
Casulo implícito exibe-se
elíptico ao contraste incrédulo do olho
Um tornar-se bicho...
Variações...Mudanças
Estações
Vida-invólucro-evolução
De um lado chuva
Do outro: vento
E do casulo: BORBOLETA AZUL
 
 

 
Passageiro
Onde a praia alonga...
A areia úmida e o caranguejo
A moça daquele beijo
A brisa e o passarinho
A moça suave...devagarinho

Lugar de passagem
passagem

 

 
"Quid est ergo tempos? Si nemo ex me quaerat sao.
Se quaerenti explicare velim nescio" (Confissões, Santo Agostinho)

"O que é o tempo? Se não me perguntam o que é o tempo, eu sei.
Se me perguntam o que é, então, digo que não sei"

Tem a boca
Tem o olho
Tem a mão
Tem o pé
Tem o peito
Tem o nervo
Tem o centro
Tem aquela velha história
Mas onde?
Tudo tem o seu lugar
Mas onde?
Nada tem cabimento
Tem o fim
Tem o começo
Tem o meio
Mas onde?
Mas quando?
Tudo tem seu tempo
Mas quando?
Nada tem cabimento

 
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