| Poesias | |
![]() |
Dione Santana
escolheu para participar dessa antologia poemas que falam
do amor, do desejo de amar, mesmo que isso implique em
ter que mudar, largar a cidade, enveredar pelos campos,
subtituir o asfalto, atolar os pés no chão. Carioca de nascimento, está radicada em Manaus há pouco mais de cinco anos. Sempre gostou de escrever, daí porque acabou fazendo jornalismo, atividade em que trabalha atualmente. |
| Inquisição | |
| Responde-me
depressa se ainda me amas, olha ao menos minha ânsia em vomitar meu desejo, de compor tua pele e expor a alma trépida, conhecer a tua identidade, decifrar tua língua insana. Responde-me depressa se a raiz do teu planeta encontra a dignidade em tua face de vergonha. Responde-me com um olhar, enganosa mentira, vem deslumbrar a ideologia tirana igualdade |
|
| Sapato | |
| Eu não sei
nada Apenas respiro quase por obrigação E exprimo as sensações de um corpo afoito Que não toscaneja, só observa com arrepio Esses passos vagabundos Que sapateiam sem direção Pelo caminho de barroi E verde capim limão. Sapatos bonitos, envernizados De bico fino e cromados Vêm e vão pra lugar algum Pobre sapato sujo, sem expressão Na passarela da lama Desnuda a palmilha Desfila com classe De pé no chão. E o sapato, outrora de barro Agora é trazido na palma da mão Meu caminho foi aterrado Sem autorização Com o negro asfalto, que arranha os pés Desliza então, pela contra mão O sapato marcado de piche Que pisou no meu coração |
|
| Livre | |
| Sol Sopra em mim, vapor quente Aroma vivo de liberdade Contagia humanidade Mostra o caminho pra essa gente Energia aromatizada Ilumina a face gélida Pinta essas caras tão pálidas Aquece de forma discreta O humor do desolado Que não pensa em mais nada Se ajoelha numa calçada Com uma garrafa na mão E espera que em novos tempos Sol Lhe dê uma direção A vergonha e o embriagado Sempre juntos, como irmãos Na madrugada, lado a lado Escondidos na multidão A angústia do desolado Não se afoga com um só copo A dor de uma ferida Não finda com água e sabão Ai, que dor na alma! Acho que vou vomitar... Enfim, acaba a balbúrdia Às 6 horas da manhã O sol, mais uma vez, E eu, te olhando, na mesa de um bar |
|
| Sol | |
| Construo
catedrais em pleno deserto acreditando em oásis, que levarão meus olhos. Tuaregues cercam meus devaneios, como no filme "O céu que nos protege", de Bernardo Bertolucci. E assim, sigo meus dias, na certeza da minha incomunicabilidade com este mundo. Mundo vasto, não de Raimundos, mas de rostos como o seu. |
|
| Lamentação | |
| Por trás do
pedregulho, a silhueta do gemido, o silêncio do teu grito, olhar cansado e sofrido. A imagem do sorriso Traduz a dor do teu vazio Como uma carruagem: clausura de ilusão, teu cobertor e carinho, é só temor e frio Meus olhos desaguam em você; infortúnio sonho obscuro, não passa de ousadia da madrugada infértil esperança em te conhecer, apenas augúrio |
|
| Voltar | |