Poesias
Dori Carvalho nasceu em 11 de junho de 1955. É ator e poeta. Como diz Thiago de Melo, é amazonense de São Joaquim da Barra. Tem escritos os livros Desencontro das Águas e Paixão Tirana. 

Aliando seu trabalho teatral à poesia, vem espalhando poemas pelos quatro cantos da cidade que adotou e foi adotado, Manaus.

 
O menino e os poetas

a Thiago de Mello

quando menino ganhei não presentes caros

mas cheios de sabedoria, delicados e raros

quatro livros de poesia, pura poesia

meu Deus, que descoberta, que alegria

Carlos Drummond de Andrade

ensinou-me a sentir a alma das cidades

Manuel Bandeira, mil bandeiras,

desde aí, caminhei sem eira nem beira

Pablo, isla negra, Neruda

mostrou-me a ternura e a vida desnuda

Thiago, amazônico Thiago de Mello

cantou-me que o mundo ainda pode ser belo.

um livro de muitas batalhas

El Che, Ernesto Guevara

sangrou-me o quanto a vida é cara.

e uma pataca de prata de quatrocentos réis

presente de aniversário do meu padrinho.

por isso, ando com esse sentimento do mundo

que tanto me faz sofrer e faz sonhar

por isso, o silêncio e a palavra

por isso, essa dureza e essa ternura

por isso, a sede de liberdade e as canções desesperadas

por isso, carrego em meu coração um pouco de poesia

por isso, levo em minha boca um copo de pasárgada

que tanto me faz amar e viver

por isso, carrego na lembrança

o fuzil, que, infelizmente, nunca usei

e a pataca de prata que perdi

e nunca soube multiplicar.
 

 
Corações Milenares

das tantas vezes

que nos encontramos

ainda recordo

estávamos aos beijos

na arena romana

enquanto os leões

trucidavam os cristãos

 

fazíamos amor

nos porões fenícios

enquanto eles guerreavam

 

você nunca foi

bailarina egípcia

nem eu faraó

éramos servos

 

enquanto você curava feridas

eu fazia pobres versos

 

na santa inquisição

não fomos queimados na fogueira

fazíamos loucuras

escondidos dos padres

 

e sempre um mistério

 

na segunda guerra

não éramos da resistência

nem nazistas, fugíamos das bombas

para amar em algum paiol

 

tantos encontros

tantos lugares

 

e sempre um mistério

 

no império inca

no império austro-húngaro

não éramos vítimas

nem réus sanguinários

passávamos ao largo

polindo, desejos e ornamentos

entre beijos e armaduras

 

nem vimos a guerra de tróia

tão alucinados estávamos de sonhos

 

e sempre um mistério

 

uma vez sim, fomos deuses

dionísio e diana

numa noite de carnaval

no início do século

no mais

sempre fomos plebeus

apaixonadamente plebeus

 

eu sempre arteiro

tu sempre curativa

e sempre um mistério

 

nos cortava

nos partia

nos separava

um corte em nossas carnes

uma partida inesperada

uma separação de corpos

 

sempre um mistério

e estranhas cicatrizes

sempre o grande amor

e eternas guerras internas

 

no final do século vinte

eu era só um menino

tu eras só uma menina

perdidos e apaixonados

 

 
As tetas do povo

Fiquem aí os senhores

Mamando nas tetas

                                    do povo

Enquanto o povo

Mama nas tetas

                            das pedras

 

cuidado senhores muito cuidado

qualquer dia

as pedras viram armas

qualquer dia

            a fome vira raiva

qualquer dia

              a casa cai
 

 
Quarto vazio

ela vem chegando

quando menos se espera

vai penetrando

invadindo sem pedir licença

tomando conta

da cabeça, dos poros

dos músculos, dos ossos

nada adiantou, nada

os sorrisos forçados

as verdades, as mentiras

as conversas fiadas, as bebidas.

a noite leva as luzes

o que resta é silêncio

o maldito silêncio

os quartos vazios

as teias de aranha

o caminho das formigas

os pombos no telhado

o vento inesperadamente frio

uma barata que passa

um ratinho que foge

um desejo, um calafrio

a cama crescendo, crescendo

ela vem chegando

e num instante

salta sobre seu corpo

aprisiona seus olhos

as pernas, os braços

inertes, o coração

acelerado e nada mais

o medo, o pânico, o pavor mesmo

invade a alma

e não tem mais saída

elas começam a cair

as malditas lágrimas

começam a cair

e não param mais

e o sono não vem

nunca mais. a solidão

o maldito império da solidão

 

 
Descaminhos

Caí de quatro na glória

Manda brasa queimando ilusões

Tudo não passou de arremedo

No beco do macedo

Afogado na ponta negra

Andei com desleixo

Pela estrada do aleixo

Na vila da prata

A saudade quase mata

Frei José dos inocentes

Nem tão inocente assim

Itamaracara e coragem

No tiradentes enforcado

Gritei feito um demente

E ninguém ouviu

Murcharam os lírios do vale

Eldorado nem aqui

Nem no solimões

No são raimundo

Não pintou solução

No são jorge

Fui guerreiro e dragão

Alvorada um dois três

Eu canto outra vez

E o sol não vem

No morro da liberdade

 
Voltar