| Pharmákon - Veneno ou Remédio | |
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| Welton Oda Filósofo e pedagogo yoda@argo.com.br | |
03/06/2010 16:33 | |
| Um dos vilões dos movimentos feministas em décadas passadas foi encarnado por um tipo de homem casado, promíscuo e neuroticamente controlador da vida afetiva de sua esposa, o tipo que acreditava que “tudo posso porque sou homem”. Negligente com tarefas domésticas e com a educação dos filhos, o tal homem estilo Jece Valadão era o alvo preferido da crítica feminista.
Tal crítica possibilitou à muitas importantes mulheres, como Simone de Beauvoir, Hannah Arendt, Sueli Rolnik, Marilena Chaui, Rita Lee (para Tom Zé, a maior professora de educação sexual do Brasil) e tantas outras intelectuais, artistas, trabalhadoras do campo, das fábricas e estudantes, a construção de laços sociais, familiares, relações políticas e éticas que superassem este modelo arcaico de relação homem-mulher. Outras, entretanto, acabaram enredadas em puro ressentimento. Assim, suas vidas amarguradas, seu ódio ao marido e ao casamento infeliz, acabaram criando em suas filhas a sensação de que havia um modo de vida que elas jamais deveriam repetir: o de suas mães. Assim, ao contrário da mulher livre, comprometida com a construção de novos caminhos, novas possibilidades, nasceu também uma outra mulher, que, buscando fugir do perfil Amélia[1], acabou reproduzindo, ainda que, em razão inversa, a desigualdade que a geração anterior buscou combater. Esta mulher, que se tornou absolutamente avessa aos trabalhos domésticos, usou a mesma estratégia do pai para não precisar colaborar com a divisão de tarefas em casa: vestiu terninho e tornou-se workaholic (ou mochila/pasta e tornou-se... studyaholic??). “Meu filho, você não vê que a mamãe precisa trabalhar”. “Minha filha, hoje não que a mamãe tá cansada!” Muitas também reproduziram o padrão fast-food sexual dos pais, que, ao invés de configurar-se como uma sexualidade livre - que, como diria Foucault, contribuísse para a criação de novas formas de vida – acabou por perpetuar uma perspectiva banalizadora, reificadora do sexo, que parece desprezar as dimensões ética e política da sexualidade. Este estilo “pegadora”, ao contrário de representar a necessária superação da histórica repressão sexual das mulheres, acaba por reeditar um velho e conhecido modelo. Afinal, “pegar” é tratar o outro como a laranja da quitanda: inerte, passiva e sempre pronta para o uso. A laranja da quitanda não tem expectativas, sentimentos, anseios, talvez não se importe em tornar-se suco ou bagaço. Nasci e cresci numa sociedade que estimulava os homens a serem “garanhões”, “pegadores”, “comedores”. Percebo com tristeza que isto continua a ser freqüente em nossos tempos. E que se disseminou, atingiu outro público, ganhou adeptas mulheres, num espetáculo igualmente deprimente. Nada de moralizar o sexo. Ou romantizá-lo. Não se trata disso, tampouco de mudar de lado o poder. Thamy Pogrebinschi, assim sintetiza o ideal de Foucault em A história da sexualidade: “O sexo sem a lei e o poder sem o rei”. Foucault também diria que sexualidade e poder são coextensivos e que não existe um sexo que não seja produzido por interações complexas de discurso e poder. Por isso, caras amigas, continuemos na luta, lembrando sempre que homens, ao menos alguns deles, não são bestas-feras a serem combatidas e podem inclusive, tornar-se importantes parceiros na construção de uma sociedade com menos Valadões, Amélias, Pegadores e Pegadoras. E, evidentemente, uma sociedade de “prazeres novos”, de nova sexualidade. [1] Confesso que, muitas vezes, acredito que Mário Lago, o autor da polêmica canção “Amélia” foi meio injustiçado, já que a letra fala mais de uma mulher solidária do que submissa, além de criticar a mulher consumista e perua. Até concordo que ele exagerou quando disse “achava bonito não ter o que comer”, mas, exceto por este trecho “infeliz”, não percebo na letra nenhuma “ode à mulher submissa”. | |
Opiniões dos Leitores: | |
Data/Hora: 22/07/2010 18:32:43 | |
| Leitor: teka torres | |
| Local: Manaus | |
| Comentário: Poucas vezes li um texto tão bem construído sobre esse tema (pela ótica masculina). Parabéns, inclusive pela coragem. E posso assegurar que você não está solitário em sua visão. Eu mesma conheço homens (poucos, é verdade) que compartilham do mesmo ponto de vista. | |
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Data/Hora: 06/07/2010 03:11:36 | |
| Leitor: Alzira Ewerton | |
| Local: España | |
| Comentário: Infelizmente, as relaçoes macho e fêmea, na atualidade, encontram-se fragilizadas ante a falta de respeito e solidez. Simone de Beauvoir, sofreu o arrependimento de haver escrito a obra "O Segundo Sexo", pois declarou que esperava ser compreendida com o mesmo sentimento que a impulsionou quando a escreveu, e jamais imaginava que seria mal interpretada. Disse a grande filósofa que nao a teria escrito, caso soubesse que resultaria no que se tornou. Frágil o homem e frágil a mulher. Perdidos, nao encontraram ainda o ponto de equilíbrio. A promiscuidade a imperar, impulsionada pelo "temor" que caracteriza a postura dos dois sexos. | |
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