Olhar Crítico

Flávio Lauria
Professor Universitário e Consultor de Empresas
lauria@osite.com.br

28/07/2010 13:57
Violência

O bordão “Bandido bom é bandido morto” geralmente é feito por quem quer notoriedade na mídia, principalmente na televisão como foi o caso do ex-deputado Wallace Souza, que faleceu nesta terça-feira. O pior é que o cidadão acredita por certo que esta atitude seja uma solução para “sublimar” seu sofrimento a dor da perda do ente querido e a emanação da ação efetiva do ideal de justiça buscado erroneamente pelo indivíduo.

A desvalorização da vida humana, implícita nessas idéias, contribuiu, sem dúvida, para esse espiral de violência, atingindo polícia e população. Nunca conheço vítimas ou autores na chamada banalização do crime, entendida como a eliminação física do próximo, as mais das vezes por motivos fúteis.

Sabemos também da banalização dos crimes de outro tipo: os praticados, sem repercussão de impacto na mídia, pelas elites econômico-sociais durante séculos, desde a própria chegada dos enviados de El-Rei, construindo, consciente ou inconscientemente, um status quo que traz como resultado a morte diária de pessoas, principalmente crianças, por falta de meios mínimos de subsistência; os perpetrados pela máfia de colarinho branco, protegida na malha política, empresarial, judiciária e da administração pública, apropriando-se do patrimônio social. Apropriação antes de tudo covarde, diferentemente da feita por assaltantes de mão armada que podem até arriscar a vida com reação de suas vítimas ou de eventuais seguranças e policiais.

E, convenhamos, os criminosos de colarinho branco atuam numa amplitude incomparável em termos de prejuízos econômico-sociais para a coletividade. É de se perguntar onde estão os porquês e os culpados da existência desse quadro de abrangência nacional. Especialistas de diferentes áreas têm contribuído para levantar as causas e as soluções dessa situação. Entre as primeiras, é apontada a concentração de renda, empurrando grande parte da população a níveis miseráveis de sobrevivência, facilitando o recurso ao tráfico de drogas como meio de vida; a falta de uma orientação de controle de natalidade voltada para as classes mais pobres; o sucateamento do aparelho policial e má remuneração dos profissionais do setor, motivando inclusive condições para muitos se corromperem; a falência do sistema prisional, transformado em escola de aperfeiçoamento de criminosos e o ultrapassado sistema de leis penais vigente.

O que pessoalmente posso fazer como contra esse massacre? Abalado, impotente diante do fato e de mim mesmo, vontade tenho de abrir a janela e no silêncio da madrugada gritar em protesto contra o que está acontecendo. Alguns moradores de meu condomínio poderiam acordar, mas, incomodados, se voltariam contra mim, chamando-me, no mínimo, de louco. Compadeço-me profundamente, mas as lágrimas não vêm e até seriam lugar comum se fosse me martirizar com as barbaridades destacadas diariamente pela Imprensa.


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