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14/09/2008 20:43 - Entrevista de Francisco Oliveira


Pergunta – Caro professor Francisco de Oliveira, em seu instigante artigo “Política numa era de indeterminação” (publicado no livro “A era da indeterminação”, editora Boitempo, 2007), o senhor faz uma periodização do século XX brasileiro, desde principalmente 1930, como um período de “internalização das decisões” (Celso Furtado) que resultou em um momento derradeiro (a assim chamada “Nova República”, 1985-1990) em que pareceu que tínhamos um sistema político assentado num jogo de adequação de interesses, classes e representação política. De repente, tudo isso se esfumou. No Brasil de hoje (2008) se vive, ainda, uma “era da indeterminação”? Qual a governabilidade da “indeterminação”, se por paradoxo é possível?/

Resposta - Pergunta – Caro professor Francisco de Oliveira, em seu instigante > artigo “Política numa era de indeterminação” (publicado no livro “A > era da indeterminação”, editora Boitempo, 2007), o senhor faz uma > periodização do século XX brasileiro, desde principalmente 1930, como > um período de “internalização das decisões” (Celso Furtado) que > resultou em um momento derradeiro (a assim chamada “Nova República”, > 1985-1990) em que pareceu que tínhamos um sistema político assentado > num jogo de adequação de interesses, classes e representação política. > De repente, tudo isso se esfumou. No Brasil de hoje (2008) se vive, > ainda, uma “era da indeterminação”? Qual a governabilidade da > “indeterminação”, se por paradoxo é possível?/

Pergunta – Em recente programa de televisão alusivo aos 90 anos de > Antonio Candido, o senhor afirmou que a geração de autores como o > próprio Candido, Caio Prado, Florestan Fernandes, etc., são “pontos de > partida” e não “de chegada” na compreensão do Brasil. Como é possível > chegar a algum “ponto”, em termos de espaço nacional brasileiro, > diante da internacionalização da economia?/

Resposta - Eles são pontos de partida, porque é a partir daí que > temos que avançar na compreensão do Brasil. Não são mais pontos de > chegada, por exemplo, com Celso Furtado: a globalização redefiniu os > termos entre periferia e centro, por isso a teorização de Furtado não > pode ser entendida como uma radiografia do Brasil de hoje e de sua > inserção no sistema internacional. A partir de sua “internalização de > decisões”, que foi o auge do “subdesenvolvimento”, podemos partir para > entender a extroversão das decisões, mas não podemos nos contentar com > as recomendações de política que decorriam do “subdesenvolvimento”. > Com os outros grandes teóricos, passa-se mais ou menos o mesmo, talvez > menos com Antonio Candido, pois como sabemos as mediações de > sociedade, Estado e sistema econômico são mais complexas, e qualquer > reducionismo aí é muito perigoso. Florestan pode ser entendido na > chave também do “ponto de partida”, mas sua i nterpretação sobre a > ausência de “revolução burguesa” no Brasil, em chave parecida com as > dos nossos Carlos Nelson Coutinho e Luis Werneck Vianna, deve ser > repensada, pois no capitalismo globalizado já não se faz necessária > que a burguesia nacional seja revolucionária. Aliás, se a “hegemonia > às avessas” tem alguma qualidade como “provocação teórica”, está > exatamente em que a globalização utiliza as “energias utópicas” > (Habermas) dos dominados para a nova forma de dominação.

Pergunta – Tivemos dois anos de crescimento econômico no Brasil. > Sobrevém atualmente uma crise econômica internacional, com fulcro nos > Estados Unidos. Diante da conjuntura, como se projetam as dificuldades > no governo brasileiro, doravante?/ >

Resposta - Pode-se produzir “descolamento” entre a crise nos USA e > também na Europa, e a expansão capitalista no Brasil. Estamos nos > especializando em comodities, além de que convém insistir em que a > dinâmica capitalista na China e na Índia supre as demandas de outras > regiões. A crise norteamericana, que é sobretudo de caráter > financeiro, não necessariamente afeta as comodities. Já se produziu > algo parecido na crise dos anos 30: enquanto o capitalismo central > mergulhava em recessão, a economia brasileira cresceu. O problema, > desta vez, é que o financiamento da acumulação de capital no Brasil se > extroverteu, e então uma crise financeira pode nos afetar gravemente.

Pergunta – Na esteira das antigas e polêmicas digressões de Rui > Mauro Marini, enunciadas em Dialética da dependência (México, Editora > Era, 1977), ainda na década de 70 do século passado, alguns vizinhos > brasileiros (Bolívia, Paraguai, e mesmo a Argentina, entre outros) > voltaram a falar em um “sub-imperialismo” brasileiro. Realmente, os > investimentos estatais e empresariais brasileiros têm crescido nesses > países. Como analisa a questão? /

Resposta - Creio que Rui Mauro Marini previu corretamente a > trajetória do capitalismo brasileiro e suas relações com a América do > Sul. Na época, apenas Itaipu anunciava sua tese; agora, a Petrobrás > controla 15% do PIB da Bolívia. Isto é uma empresa dentro de um Estado > ou um Estado dentro de uma empresa? Até o governo brasileiro tem medo > da Petrobrás: a discussão atual sobre o Pré-Sal mostra que o governo > não controla mais sua principal empresa. Parodiando Paul Baran > [1910-1964], em conferência no Recife, que nunca foi divulgada, não é > o governo brasileiro que controla a Petrobrás, mas é a Petrobrás quem > controla o governo brasileiro. Perto disso, o imperialismo das antigas > grandes “sete irmãs “ do petróleo é brincadeira de aprendiz

Pergunta – Face à ciclotimia das posições do Brasil na “rodada de > Doha” da OMC (começou com posições alinhadas à China, Índia e > Argentina, depois reviu posições), o impasse final revela uma questão > estrutural interessante: a China e a Índia pretendem aprovar mecanismo > de proteção a os camponeses contra os surtos de importação do > agro-negócio, inclusive o brasileiro. Fala-se em agricultura familiar, > mas não há mais camponeses requisitando proteção contra os preços > internacionais no Brasil? Como abordar a “questão agrária” no Brasil > de hoje?/

Resposta - Não sou muito bom em assuntos de comércio internacional, > mas é muito evidente que o agro-negócio é quem dita a política > comercial brasileira. Assim, as idas e vindas, a vacilação, a mudança > de posição na Rodada Doha só confirma isso. O Brasil volta assim à era > do café: suas exportações colocam-se contra as condições de vida das > parcelas menos importantes das classes dominadas. A questão agrária > perdeu importância na medida em que o agro-negócio resolveu a “questão > agrícola”: não há mais nenhum produto importante da economia camponesa > na mesa do brasileiro, daí que a solidariedade com os Sem-Terra, por > exemplo, não passa do nível e superfície da retórica. Num país em que > o principal sojicultor do mundo era do PPS, tudo é possível. E o > principal depredador: vocês já viram um mapa de Mato Grosso? Reparem > nas legendas: a enorme área sem vegetação é hoje de cultura de soja, > de milho, e mesmo a pecuária está send o varrida, assim falou esse > senhor Maggi, governador daquele infeliz estado

Pergunta – Os Estados Unidos parecem viver, nas eleições > presidenciais de 2008, o esgotamento da “era Bush” (de predomínio > neoconservador) e certa retomada do gosto pela política. Sumariamente, > como o senhor analisa as eleições norte-americanas e o fenômeno de > Barack Obama?/

Não compartilho desse otimismo. Obama é tão conservador quanto > Lula. Ele é mais /establisment/ que Hilary, que no fundo não passava > de uma advogada de província – ela era de Arkansas, como o marido – > enquanto Obama freqüentou Harvard. Fiz um artigo para a FOLHA DE > S.PAULO [28/02/2008] que se chamada exatamente “Obama, Tocqueville e a > Ilusão Americana”. Obama é uma ilusão.

 

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