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Ilustração: Adriana Ramalho

Capítulo 12

Vagando cego nos beiradões

 
Ambrosinho crescia saudável. Com um mês e meio não havia apresentado as costumeiras cólicas que afetam os bebês nesse período. Era do tipo que mamava bem, dormia melhor ainda, não choramingava e nem dava trabalho aos pais.  

E era a alegria da casa. Com o sumiço de Jiji, Ambrósio só queria saber do filho. Chegava do roçado e, mesmo suado, como fazia com a cobra, ia direto ver o filho. Maricota reclamava, mas ele não lhe dava ouvidos; nunca lhe dera. Colocava o bebê nos braços, com o cuidado inerente a um roceiro, e se punha a acarinhá-lo.  

Maricota achava linda a cena. Não se dispunha a comentá-la com o marido, mas é claro que era melhor vê-lo com Ambrosinho nos braços do que com aquela cobra imunda e nojenta. Bem fizera a serpente de sumir do convívio deles, pensava.  

Ademais, o marido melhorara inclusive com ela. Nem bem  acabara o seu resguardo e ele já andava se assanhando para ela. Maldizia o tempo que ficaram sem poder procriar, e que tanto desgaste provocou no relacionamento dos dois. O marido era difícil, sim, mas lhe fazia um bem danado.  

Isso tudo estava acontecendo, agora que o bebê tinha nascido, que não era, como Ambrósio imaginara, filho de Jiji. Nunca pensara que na velhice ainda fosse viver emoções tão boas quanto as que sentiu quando ainda era jovem e se entregou a Ambrósio, aquele caboquinho embirrado, mas simpático.  

Pena que a desgraça tenha baixado no barraco dos dois numa proporção bem maior do que a felicidade decorrente do nascimento de Ambrosinho. Foi numa noite em que o casal estendeu um pano no assoalho da sala para acomodar o filho, de modo que eles pudessem vê-lo do terreiro onde estavam, pela abertura da porta.  

A lua era um grande abajur a iluminar tudo por ali. Ambrósio acendeu um cigarro de palha e pôs-se a fumá-lo. A mulher também. Estavam assim, distraídos, que, por algum momento, nem se deram contas de que tinham um filho a cuidar. Quando se deram conta disso já era tarde.  

Ambrosinho  tinha sumido, simplesmente. Se choramingou foi tão baixo que não chegou aos ouvidos dos pais. Ambrósio apressou-se em acender as porongas, as duas que tinha no barraco. Em vão.    -

A cobra!, maldita és entre os homens - gritou Maricota, repetindo o que ouvira uma vez nas pregações de frei Felipe, que advertira os participantes de sua desobriga que se tratava de uma passagem do Gênesis, relativa ao descaminho de Eva, mulher de Adão, provocado por um serpente concorrente de Deus.  

- A jaguatirica! - replicou Ambrósio, pegando a lanterna e saindo para vasculhar os arredores.  

Nada. Absolumente nada o casal encontrou que pudesse ajudar na busca pelo filho. O compadre Chico e todos os conhecidos das imediações se juntaram à procura do casal. Um dia. Dois e meio, e nada de Ambrosinho.  

- Já deve ditá morto - comentou Chico, olhando estranho para Maricota.  

- Vire essa boca pra lá, homi - rebateu Xicória.  

- Foi a filha da puta da jaguatirica - disse Ambrósio.   

Uma semana depois do desaparecimento de Ambrosinho, um conhecido procurou Ambrósio para lhe dizer que vira uma cobra jibóia assoalhando na beira do rio, dando a impressão de estar com o bucho inchado.  

O velho roceiro nem terminou de ouvir o que o conhecido lhe dizia, passou a mão no machado e pôs-se a caminho do local onde lhe disseram que a tal jibóia assoalhava. Dispensou a companhia de Maricota, pedindo-lhe que ficasse em companhia do copadre Chico. No caminho, passos apressados, resmungava do maldito dia em que entrou no barraco com aquele filhote de jibóia.  

- Ingrata!  

Lá estava a bicha. O bucho, de fato, saliente. Pelo tamanho, era a Jiji. Se assobiasse, Ambrósio teria certeza disso. Mas recusou-se a fazê-lo. Aproximou-se decidido a sapecar o  machado na cabeça dela, que repousava sobre um tronco de madeira esquecido pela correnteza do Javari.  

Bem que machado foi sapecado, mas Ambrósio fê-lo com tanta força que acabou indo também de encontro ao tronco de árvore. Para a sua infelicidade e maior desgraça, não só não atingiu Jiji como foi atingido nos olhos por um galho quase podre que se mantivera preso ao tronco encalhado na praia. Cego e sem rumo, o roceiro passou a vagar pelos beiradões de rio, aqui e ali, ouvindo o que presumia ser o choro do filho.  

Cansada de esperar pelo marido e com medo de que a Jiji reaparecesse no barraco a qualquer momento, Maricota cedeu ao convite de Chico e no barraco deste foi morar uns tempos. A noite caía quando ela abandonou a casa onde vivera mais de 30 anos com Ambrósio. Ao dar aos mãos para o compadre Chico, estranhou que deste exalasse um cheiro forte de pitiú. Mas nada falou. Desapareceram na escuridão.

 
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