Crônicas
Parecem crônicas.
Resvalam para o conto,
às vezes...
beiram a poesia.
Guardam semelhança com o texto literário - lato senso.
E não guardam porcaria nenhuma - strictu senso.
Podem, enfim, ser crônicas...
Talvez fosse melhor chamá-las de cronificadas.
 
Maura
Segunda-feira...
Que saco!
Tivesse eu que encarar os ônibus, naquele terminal da Constantino Nery... meu D'us. Já não seria um saco, senão uma sacolada no âmago da minha (in)disposição de recomeço semanal.
Felizmente peguei carona e já estou aqui, no hall do ICHL, pronto para mais um dia de aula...aul...au...ao...aolá.
E a aura?
A minha vai muito bem, obrigado.
Mas a Maura, colega de curso, dificilmente a vejo. Da última vez que isso aconteceu ela me olhou e disse: "Cara, como você tá magro!".
Ruminei. Até bem pouco tempo, emagrecer, ser delgado, não chamava tanta atenção. No máximo, comentariam: "Olha lá aquele caniço ambulante".
E tudo bem.
Ultimamente, não.
Tenho a impressão que o melhor seria, ao primeiro sinal de perda de peso, comer para inflar
inflar, inflar, inflar...principalmente se você é daqueles que estão incluídos no rol de amizades do Zé.
É. O Zé! Aquele rapaz de comportamento diferenciado, sensível e educado, que não resistiu a um resfriadinho de nada e, por conta disso, desapareceu do convívio social.
Encaniçado, ele?
Encaniçado, eu?
Nada não, Maura.
Não há nada de errado comigo pelo simples fato de ser amigo do Zé.
Isso posso te garantir.
A menos que você, colega, ache normal um ser humano madrugrar todos os dias, ir à faculdade, depois ao trabalho e só voltar a casa à meia-noite, estropiado e mal alimentado.
Tem mais um detalhe, Maura: até que a alimentação não é o maior problema, senão essa maldita insônia...
...nem queira saber, quanto mais tê-la.
Não!
Nada não, Maura.
Guarde esse seu olhar fulminantemente hipocondríaco para...
Pára, mulher, e vê se aparece mais na Universidade. Quem sabe o jornalismo baré não esteja necessitando de olhares como o seu, que chafurdam fundo naquilo que vêem?
 

 
Assuntas, m'irmão
Do halll do ICHL posso ver o i de idiotismo, o cê de confuso, o agá de hipocrisia e o éle de lúgubre, que estampam os olhos desses espécimes raros que vagam pelos corredores da UA.
Coisa mais sem graça, que ora me enche os olhos e me dói nos bagos só de pensar que também faço parte desse pequeno grupo de espécimes raros, a cada ano renovado por um processo de seleção iníquo por esperteza.
Sim!
Esperteza. Uma vez que não é a débil inteligência o caminho mais longo para se alcançar as portas desse zoo universitário, senão a debilidade econômica dos insones monstrengos marginalizados e, acintosamente, educados nas escolas-baias públicas de 1o. e 2o. graus.
Praça!
Já sei, isso é uma praça; praça de guerra!
Quem sabe...
Quem sabe pensando assim consigo engolir pelos tímpanos a oratória de um espécime raro que, no Auditório Rio Solimões, em nome da 2a. turma de formandos do curso de Educação Física, agradece ao Mestre, aos mestres, pais e amigos pela graça de estar concluindo o curso.
Farsa!?
Não!
Discurso.
E físico.
É isso. O som envolve aspectos físicos. E como meu físico não é lá grande coisa, melhor fazer ouvido de poste para o juramento dos formandos.
Formandos!
Juro...
Formandos e colando aquilo que chamam de grau.
Craw!
Mais um degrau escalado na vida.
Será que eles acreditam na façanha que realizaram?
Ou será que o mecanicismo é um fato consumado que, mesmo a despeito da nossa vontade, nos leva a mancar?
Vai ver é isso mesmo, mancas?
E se for, não me assusta.
O calo surge quando você não assunta o que vai fazer.
Por isso, no íntimo da minha solidão ICHLiana, enquanto a namorada Daninha não chega, murmuro: é m'irmão, se tivesses assuntado.
 

 
E a greve oficiosa faz seu trotroir
Capiongos e sonolentos, eles descem dos ônibus.
E daqui do hall do ICHL posso vê-los envolto pela nuvem de poeira que se levanta com a parada do coletivo.
E daqui també dá pra ver a canseira que eles trazem nas pernas, nos ombros, nas costas...
Da Costa, preparado para recomeçar o período?
Querildo, fazer o quê?
Mas há um zumzum de greve por aí...
E daí?
Jaraquis me encham de pitiú, você não se importa?
Há dez anos, até que sim. Sabes como é...calouro, mal entrei já queria sair. Agora, tô por conta.
Me conta, Da Costa, por que tanto desencanto assim?
Oh, Ignorildo, não consegues perceber? Tudo bem, vamos lá. A historinha é mais ou menos essa: "Um belo dia, o neguinho conclui o 2o. grau numa dessas escolas-baias públicas e não vê a hora de encarar o vestibular. Vem as inscrições e ele, mui penosamente, tem amealhado um troquinho para tal. Cursinho? Nem pensar - isso fica para os "capados" das categorias sociais mais abastadas.
Chega o dia das provas. O neguinho vai lá tentar. E não é que ele consegue se safar na primeira fase...
Vem a segunda, e ele, quem diria, consegue a pontuação necessária para ser aprovado. O curso? Digamos que um desse da área de Ciências Humanas. Comunicação Social, por exemplo. E o neguinho, vejam só, já se imagina com o microfone à mão, na televisão, no rádio ou, sabe-se lá, numa redação de jornal. Quer porque imagina e sempre imaginou praticar o mais rápido possível a arte de bem informar.
Calminha, lá. Isso vai demorar algum tempo. Na prática, uns quatro períodos. Primeiro - está no programa do curso - a parte teórica; introdução disso, daquilo...mas tudo bem devagar, que é para a cabeça dos alunos não embaralhar. É baseado neste princípio que alguns professores conseguem se livrar da tarefa de fazer o neguinho pensar. É o que eu chamei de fase Pereira...socorro!
Passada a fase introdutória, o neguinho pensa. Isto é, repensa rimando: Agora, finalmente, vou descobrir a arte de bem informar. Os laboratórios me esperam e eu não posso vacilar. Claro. O curso tá chegando ao fim e tenho que ir à labuta. Puta quiospa, a situação tá bruta e o negócio contextualiar, textualizar, diagramar, copidescar, revelar, irradiar, entrar no ar...sei lá.
No ar!
É exatamente assim que o neguinho se sente na prática, praticamente, por não saber onde aterrisar. Mas não é isso que mais o incomoda, senão a inoperância de alguns engenheiros de vôo que, (in) justificadamente, não ousaram experimentar. Ficaram ali, acolá, entre o pára e o jornalismo propriamente dito. E voaram. Voaram. Voaram...
E o fizeram voar, voar, voar. É a fase dos calos... diabos! Difícil de aturar.
Entendi, Da Costa, nesse (con)texto a greve oficiosa faz seu trotoir, correto?
Isso, mesmo, Ignorildo. Agora, se de fato queres chegar lá, tens que correr...reto e já!
 

 
Dia das Mães
Segundo domingo de maio.
Mais um domingo, não fosse o fato de ser tachado de Dia das Mães.
Bom para as lojas, que vêem aí uma grande oportunidade de esvaziarem as prateleiras.
Não me lembro de ter dado a minha mãe algum presente no "seu dia". Quando muito, se a memória não me falha, um beijo, um abraço...
Ingrato, eu? É que você não conhece a mamãe. Ela do tipo que fala o seguinte: "O meu maior presente, filho, é ver-te feliz e saudável, feito na vida".
Coisas de mãe...
Juro, sem querer justificar a minha aparente insensatez, que é exatamente isso que desejo a ela também todos os dias.
Ontem, porém, desejei-lhe não só toda a felicidade do mundo como fui até o Centro comercial comprar-lhe um presente.
Entrei e saí de lojas.
Olhei vitrines.
Pesquisei preços e não achei nada que tivesse a cara da mamãe - talvez porque ela esteja acima de toda essas quinquilharias que são produzidas em escala industrial.
Não!
Não me chamem de cara-de-pau, desnaturado, mão de vaca ou coisa parecida.
É claro que se fosse para cumprir tão-simplesmente o ritual culto-comercial embutido na data, não me teria furtado a comprar-lhe uma lembrancinha qualquer e tudo estaria resolvido. A madrasta indústria cultural ficaria duplamente agradecida.
A verdade é que não fiz nada disso.
Voltei a casa com as mãos livres de embrulho e pensando: "Entulho para a minha mãe? comigo não!".
Se estou constrangido? Nem tanto.
Ademais, se a mamãe soubesse do meu desejo diria: "Ah, filho, meu maior presente..."
Agora, trancafiado no quarto e olhando alguns reais repousados sobre a escrivaninha, penso que o melhor seria ter feito o Caixa de alguma loja tilintar.
É isso!
Tilintintava e eu não estaria aqui com a consciência esboroada.
Afinal, as moedas foram feitas para circular.
Do contrário, teriam um formato diferente.
E como desejei tê-las em abundância para dar os mais belos regalos a minha mãezinha: jóias, roupas, sapatos, viagens...
A imaginação iria mais longe, não fosse o papagaio empoleirado na cozinha devolver-me à realidade.
Foi só aí que me dei conta das reclamações da mamãe, quando, diariamente, se entregava à vil tarefa de limpar a sujeira que a ave fazia no assoalho do apartamento.
Não tive dúvidas.
No final da tarde desse mesmo dia, em meio às lágrimas dos meus sobrinhos, o pedreiro que trabalhava no nosso apê montou na sua bicicleta e pôs-se a pedalar, levando na garupa a nossa Xuxinha.
Aqui e ali, assustada com o movimento alucinado de filhos motoro-desesperados, ela tagarelava algo como um lamento.
 

 
A desconfiança é gelada
Meio-dia.
Sol escaldante.
Asfalto transpirando mormaço daqueles.
Sede danada.
Bêbado suor, qual martírio nordestino que não cessa.
Nunca!
Escorrega pela face e nos arremessa, a mim e a namorada, ao estacionamento da sorveteria Glacial.
Saltamos.
Vamos direto ao caixa. Pago e peço por uma casquinha. A namorada, por um copinho.
Escorregamos para o balcão. Até aqui, tudo bem. Além, nem tanto.
Qual o sabor? pergunta-me o balconista de rosto pálido.
Tinha prometido a mim mesmo não pedir açaí.
Fí-lo.
Tapioca com... - fiquei na dúvida quanto ao segundo sabor.
A casquinha me dava direito a dois sabores. Não sei por que, mas o empalamado do balconista não me deu ouvidos. E o maracujá que eu desejava foi parar no copinho da namorada, sem que ela o quisesse.
A sede é tamanha. Não me deixa reivindicar, ou melhor, explicar a confusão feita pelo balconista desbotado.
Afogo-me na casquinha.
A namorada, nem tanto. Depois da segunda palhetinha, faz cara de papel amarrotado e rejeita o sorvete.
Isto...
Tento convencê-la a trocar de sorvete comigo.
Nada feito.
Proponho uma mistura à parte.
Ela ignora.
Dirijo-me ao balconista descorado:
Por favor, um copinho vazio.
Não! não posso - responde-me o empombado.
Tentei argumentar a confusão de sabores feita por ele, mas fui atalhado pela moça do Caixa que, insolentemente, saiu em defesa do dito cujo defuntado.
Não podemos. É uma ordem do patrão.
Não queria, mas fui levado a concluir: a desconfiança é gelada. E mais: nas soveterias, vem servida em vários sabores e cores, mas em taças copinhos contados.
 

 
O estranho da esquina
Estranho, mas todo fim de tarde, de todo santo dia e mesmo dos dias santos, ele sentava naquela ponta de calçada de um hotel recém-demolido.
à frente, as esquinas de uma rua que levava ao porto.
Oposto?
Desgosto?
Por quem gastava tanto tempo observando-as?
Castanho era o olhar do estranho.
Estanho, diriam.
E via longe. Mas o quê? Por quê?
Pontual e constantemente, todo dia.
Seria por Constância? Havia algum tempo que ela mudara-se dalí.
Cristina?
Cristo, que sina.
Um dia, sumiu como por encanto?
desencanto?
desencontro?
desconto?
espanto?
quebranto?
Quem sabe ...
No rastro, um cântico num bilhete em flandres dizia: "Enganam-se! Nem estranho. Nem estanho. Tampouco constante. Muito menos Constância; cortem essa e aquela também. No fundo, certa ânsia, costume, concomitância".
 

 
Dia dos Pais
Faltava-lhe coragem para revelar à mãe que não comprara o presente do pai com o dinheiro que ela havia lhe dado com a seguinte recomendação: "Faz isso, filhinho, pelo menos uma vez dê ouvidos ao que lhe peço".
Ele tinha, isso sim, estourado toda a grana com a turminha de sempre.
Era viciado, a mãe sabia disso.
O pai, por isso mesmo, não mais lhe dirigia a palavra.
Tinha a mãe que lhe dar aquele dinheiro?
Queria arrepender-se, mas não estava à altura desse gesto. Ademais, agora isso pouco importava.
Tarde...
Saíra de casa na sexta-feira, à tardinha, garantindo à mãe que iria, sim, seguir seus conselhos. E ainda brincou: "Há sempre uma primeira vez, né mesmo?"
E a mãe, coitada, retrucou: "Isso, filho, faz o que eu digo pela sua própria vida"
Que vida!
Voltou na madrugada de domingo, sem dinheiro, sem presente, fumado e em estado de depressão.
A mãe logo viu que ele mais uma vez...
A mãe mais uma vez tentou dele se aproximar, mas foi repelida pelo seu olhar de facão.
Ele, então, entrou no quarto, fechou a porta atrás de si como um carcereiro que acabasse de trancafiar um perigoso bandido.
Aquele domingo demoraria a passar.
Aquele domingo não passaria jamais.
Um instante de reflexão se interpôs entre ele e o escuro do quarto.
No claro-escuro de sua mente, de repente, viu-se aos quatorze anos chegando à escola.
Na entrada, recebendo um bombom de alguém sem mais nem menos.
Sem mais nem menos o provou. Gostou. Passou a comprá-lo sempre mais, nunca menos.
O pai foi avisado do comportamento estranho que ele vinha apresentando na escola.
O pai podia ter tido um pouco de paciência com ele e não esmurrá-lo como se esmurrase a testa de um carneiro.
O pai não lhe devia ter chutado a cara nem falado para a vizinhança toda ouvir que não iria criar drogados em casa.
Porra, ele só tinha quatroze anos. Não fosse pela mãe, o pai...
Foi ela também quem o visitou, chorando, no dia em que soube que ele tinha sido detido acusado de tentativa de roubo a uma aposentada.
Deu nos jornais!
Os jornais que se fudessem!
Ele era de menor.
Os jornais menores.
O mundo era menor.
Ninguém via isso. Ninguém via que ele precisava agigantar-se na sua pequeneza.
Conseguiria mudar isso? Ou não conseguiria mais?
No claro-escuro da mente, de repente...
Talvez fosse legal abrir a porta do quarto, as janelas, as janelas...
Fê-lo e deu com os pais saindo.
Acompanhou-os a distância.
Os pais entraram.
Ele fez a mesma coisa, mas preferiu ficar ali pelos fundos, num banco parece que propositadamente vazio.
Sentou-se.
Cabisbaixo ficou.
De súbito, elevou a vista e deu com o Pai olhando em sua direção, sorrindo, podia acreditar.
Não despregou mais o olhar do Pai, a não ser para apertar a mão de uma pessoa que lhe saudava em Cristo.
Era o pai, de carne e osso, que trazia consigo uma fileira de novos irmãos com o mesmo propósito: saudar-lhe em Cristo.
 

 
Margarida-sabe-tudo
Preparados para a prova bimestral?
Poucos responderam à pergunta da professora. Pudera, estavam mais preocupados em dar os últimos retoques na "sanfoninha" e outros artifícios de cola.
Só Margarida mostrava-se tranquila, com o seu inseparável walkman que ela ocultava sob o uniforme. Fazia a mesma coisa com o fone de ouvido, confundindo-o com a vasta cabeleira.
Vamos lá, turma, destaquem uma folha de caderno. O resto do material coloquem debaixo da carteira.
Mas professora, a prova não seria xerocopiada?
Vocês têm mal o passe estudantil para chegar aqui. Ou será que acham que nós, os professores, estamos nadando em dinheiro? Deixem de graça e vamos à prova.
Serão os três assuntos do bimestre, fessora?
Não, resolvi minimizar as nossas dificuldades. Vai ser apenas sobre o Barroco.
Barrrr, que oco tomou conta da classe.
Só Margarida-sabe-tudo continuava tranquila e sibilando, provavelmente, o Rock do Jegue, do Genival Lacerda.
Os demais alunos, nem tanto, pareciam que estavam participando de um velório.
Aliás, a tristeza antecipada dos alunos seria confirmada uma semana depois, quando as notas foram divulgadas. Elas avermelhavam todo o Diário de Classe da disciplina Literatura brasileira.
Uma única nota azul, no entanto, figurava em meio às vermelhas que abundavam. Era a de Margarida. Mas ela também que tratasse de substituir logo o seu velho walkman. Mordendo a fita como ele vinha fazendo, começava a dificultar a escuta das colas.
 

 
Dia das crianças
Fechou a porta da repartição. Eram 17h. Quando menos percebeu - se é que percebeu - estava no lado de fora. Na rua. Os últimos 30 anos tinham sido assim.
Foi com muita luta que chegou ao cargo de Assistente Administrativo III de uma repartição federal. Era tudo que a mãe queria: um emprego federal. Agora estava para se aposentar e vinha se dando conta que nada o havia levado a tão longe quanto esperava.
Desde quando se achou gente, nunca parou de estudar e trabalhar. Mais trabalhava do que estudava. Brincadeira? Praticamente nenhuma. O pai foi cedo. A mãe, coitada, consumiu a juventude no trabalho gratuito para a família do marido falecido. Mas guardava uma certeza de que Deus a recompensaria um dia.
Ele cresceu ouvindo os rogos da mãe. Absorveu-os. Assumiu-os como se fossem responsabilidade sua e não de Deus. Estudava menos do que trabalhava no roçado da família do pai falecido.
Com muito esforço concluiu o segundo grau. Pintou um concurso para uma repartição federal. Inscreveu-se. Fez as provas com o pouco que sabia. Passou. A mãe sorriu com as mãos apontado para o céu.
No começo, para ganhar a confiança e simpatia dos colegas, não enjeitava nenhum tipo de trabalho na repartição. Queria aprender de tudo um pouco.
Aos poucos foi mudando de referência. Primeiro, Assistente Administrativo I. Depois, II. Mais tarde, III. Parou por aí. Não tinha qualificação para os cargos imediatos. Nem pensou em qualificar-se. Bastava a comodidade do emprego federal. Era tudo que a mãe...era tudo que ele...
Brincadeiras? Nunca. Nem na infância. Bem, pelo até aquele dia em que fechou a porta e, quando menos percebeu - se é que... Era um dia bom: véspera do Dia das Crianças.
Já na rua, entrou na primeira loja que encontrou pela frente. Foi direto à seção de brinquedos. Comprou três carrinhos: um para ele e os outros para os dois filhos. Para a mulher e a filha, levou bonecas. Entrou em casa praticamente embrulhado aos embrulhos.
No dia seguinte, bem cedo, foi ao quintal e preparou uma pista de corrida, com saída para a rua. O retão da rua da sua casa. Acordou os filhos. Os filhos e a esposa, que nada entenderam.
Ele só queria brincar. Entrou no seu carrinho e cravou o pé no acelerador. Deu uma volta no quintal inteiro e parou a um metro da família. Queimara pneus. Sempre quis queimar pneus. Fazer cavalo-de-pau. Enfim...
Quando se preparava para arrancar novamente, agora em direção ao retão da sua rua, foi contido pela mulher e os filhos; a mulher, os filhos e os cunhados. Dali mesmo seguiu para o hospital psiquiátrico Eduardo Ribeiro, onde fora abandonado.
Os seus familiares nunca mais voltaram para lhe ver. Os seus familiares não gostaram das suas brincadeiras. Mas do que isso importava agora? Tinha ganho a companhia de gente como ele: indiferentes a si mesmos, socialmente pervertidos. Ali, continuou acelerando sem parar.
 

 
Vivo, mas enterrado
Há pessoas que por motivos vários desejam a morte para sumir do convívio social dos vivos
Enterradas, pensam elas, findam-se os problemas
Acabam-se os tormentos
Deixam de incomodar e serem incomodadas
É ponto final, a bênção e tchau
Outras, ao contrário, querem é mais viver
"viver sem vergonha de serem felizes"
Querem aproveitar, pródiga ou mecanicamente, tudo que a vida pode lhes oferecer
A vida, simplesmente, que vale por tudo e mais um pouco
Sóbrias ou não, a verdade é que para essa gente viver plenamente é o máximo
Pela vida, se for o caso, tal gente comete as maiores peripércias, espécie de reverso do verso que ser quer conjugar, sempre: amar!?
Ah...Mar!
Se me foges das mãos o jeito é te desalinizar
Mato-te, mesmo que seja só para roubar o teu líquido, ainda que venhas a me liquidar
E não foi isso que aconteceu ao ex-piloto da Aeronáutica Brauner Barbosa Moreira, ao matar com dois tiros na cabeça a esposa Tirza Carvalho Moreira?
Depois, insatisfeito, tentou fazer o mesmo consigo
Que cabeça!
Ela se foi Brauner
Afinal, não querias isso?
Acabaram-se os teus tormentos
Findaram-se as tuas incertezas
Nada mais de maçã podre
Nada mais de serpente
O Paraíso ao teu alcance
Restastes, homem
Esqueça essa teatrinho que representas no HUGV
Maluco, tu?
Eu, hein, Brauner...
Ao vão fostes também
E o que é pior, ainda em vida
Eta, quanto paradoxo
Manaus, 10.04.96
 

 
Natal das luzes. Mas que luzes?
Vamos lá!
Natal rima com o quê?
Luzes coloridas?
Sorrisos?
Que tal alimentação farta?
Já sei, você pensou em peru...
- realmente é uma festa do peru
Casa cheia?
Ceia?
Champanhe?
Presentes, não é mesmo?
Então...
Quer dizer, para uns um pouco de tudo isso
Para alguns, tudo isso e mais um pouco - coisa de louco
para outros, nada disso - coisa de bicho remexendo o lixo
É isso!
Ou seria melhor dizer aquilo?
Afinal, Natal rima com o quê?
Falta de luz?
Falta de água?
Falta de casa?
Choro e tristeza?
Que tal fome-faminta?
Já sei, você pensou em cactos...
- ratos me mordam, eles também
Isso mesmo, amém!
Mesa não há
Aperitivo tampouco
Ausência, sim!
Injustiça também!
Porque Natal rima com vida
Porque Natal rima com morte
Porque Natal rima
Rima
Rima...com a felicidade de quem?
 

 
Ano Novo
Havia de estar tudo preparado até o final da tarde, quando os filhos chegassem com a mãe de Jesus para as comemorações da passagem de ano em família. Manaus, no último dia do ano, estava agitada por um determinismo inerente às festas do réveillon. O trânsito a exigir mais atenção de pedestres e motoristas.  

Jesus era motoboy, trabalhava entregando pizza. Madalena, industriária numa fábrica do Distrito Industrial. Pelo acordo com a pizzaria, ele deveria voltar ao trabalho ao meio-dia do dia primeiro do novo ano. Ela faria o mesmo, mas no primeiro turno da noite do mesmo dia.  

Moravam num casebre adquirido numa invasão. Com muito esforço, Jesus comprou um moto Honda 125 cc, usada. Madalena o ajudava a pagar as prestações. Iam levando. Embora modesta, a casa tinha geladeira, TV e fogão. O que eles não tinham era tempo e uma outra pessoa com quem pudesse deixar os dois filhos, Pedro e João, de quatro e cinco anos.

Por isso, resolveram apelar para Maria, mãe de Jesus, que morava em Rio Preto da Eva, a 80 quilômetros de Manaus, plantando roça com o marido José, que também exercia o ofício de carpinteiro quando a situação apertava.  

A família, no entanto, costumava se reunir no último dia do ano. Cristãos, eles tinham como hábito ir à missa. Depois, sim, voltavam a casa. Comiam, bebiam, dançavam e se desejavam mutuamente tudo de bom, com a simplicidade que convém a uma gente simples.   

Ceia
Cedo da manhã, Jesus e Madalena começaram a providenciar tudo referente à comida, que não era lá muita coisa: uma ave chester e todos os ingredientes para o preparo da maionese, do arroz e da farofa. Não compraram refrigerante. Ficou acertado que Maria e José trariam cupuaçu do roçado e carambola, com os quais fariam suco para acompanhar a comida.  

Às 16h, Jesus e Madalena foram informados por um vizinho que Maria e José já estavam na Rodoviária de Manaus. Traziam os netos e esperavam que eles os fossem buscar. Afinal, o casal de roceiro vivia em situação precária e não tinha dinheiro para o táxi.  

Jesus ligou a moto e, com Madalena na garupa, dirigiu-se à Rodoviária. Em 20 minutos estariam lá. Como fizeram no ano anterior, Maria ficaria com os sogros enquanto Jesus transportava os filhos para casa. Depois, daria mais três voltas para fazer o mesmo com a mãe, o pai e, por último, a esposa.  

Acidente
Quando atravessavam o cruzamento da rua Efigênio Sales com a Recife, Jesus e Madalena foram atingidos por uma F-250 que avançara o sinal vermelho, vindo da Recife na direção bairro-Centro. A roda dianteira direita da pick-up atingiu em cheio o tanque da moto, praticamente partindo-a ao meio. Com o impacto, Jesus teve a perna direita fraturada e, com Madalena, foi parar a pelo menos sete metros do local onde o acidente ocorreu.  

Logo alguns curiosos se juntaram ao redor do casal, a maioria apenas para ver o estado deles, uns poucos dispostos a ajudar. Com escoriações por todo o corpo, além da perna direita fraturada, Jesus ainda teve forças para se aproximar de Madalena. Viu que a mulher estava desacordada, mas não apresentava sinais de fratura. Ficou aliviado.  

Engano, ao serem levados para o hospital 28 de Agosto, localizado há cerca de 500 metros onde o acidente ocorreu, ficou constatado que Madalena havia fraturado algumas costelas e apresentava sinais de ter rompido o baço também. Como o seu estado inspirava mais cuidado do que o de Jesus, foi acertado que ela seria operada primeiro. Mas isso só depois que um dos cirurgiões plantonistas se desocupasse. O que ocorreu às 21h30.  

Atendimento
Enquanto isso, Jesus ficou no corredor do hospital, deitado num colchonete e recebendo sôro, ora gemendo, ora querendo saber da mulher, dos pais, dos filhos. Ao contrário de Madalena, não perdera a consciência. E, não fosse pela perna quebrada, teria ido à Rodoviária receber os pais e os filhos.  

Dada a magnitude do acidente e a forma irresponsável como o motorista da F-250 agiu, fugindo sem prestar socorro, logo os taxistas se encarregaram de comentá-lo, inclusive na Rodoviária, onde um deles fazia ponto. Os comentários chegaram aos ouvidos de Maria e José, que ligaram o fato ao atraso do filho e da nora.  

Desesperada, Maria teve um princípio de chilique. José tentava acalmá-la e aos netos também, que, sem saber ao certo o que estava ocorrendo, começaram a choramingar. Certificado da localização do hospital 28 de Agosto, sem dinheiro nem conhecidos na cidade, José enfrentou a pé, com Maria e os netos, os quase quatro quilômetros que separam a Rodoviária do hospital.  

Burocracia e ineficiência
Para os pais de Jesus, mais cansativa que a caminhada foi ter que enfrentar a burocracia do hospital. Só depois de algum tempo é que uma assistente social aproximou-se para saber quem era o casal que falava alto e as crianças que choravam à entrada do hospital. Deu com Maria em prantos. Perguntou-lhe o sobrenome e confirmou que os dois acidentados eram Jesus e Madalena. A essa altura, ja passava das 23 horas.  

- Quero ver meu filho, Jesus - disse Maria, em lágrimas.  

- Acalme-se, por favor, desse jeito a senhora não irá ajudar em nada seu filho.  

- Não me importa, quero ver meu Jesus!  

A intenção da assistente era evitar que a mãe visse o filho estirado no chão, recebendo sôro e gemendo, gemendo, agora, quase inaudível. Prorrogou a entrada de Maria até o momento que fora avisada de que Madalena estava de saída da sala de cirurgia, onde Jesus deveria entrar em seguida.  

Diante do sofrimento da mãe, a assistente social mudou de idéia. Sinalizou para o segurança deixar Maria passar. E, passando, ela se dirigiu ao corredor onde o filho estava deitado.  

Maria ajoelhou-se, limpou o rosto do filho com um lenço encardido que trazia nos seios, debaixo do sutiã, e ainda pôde ouvir o seu último suspiro. Ali, no seu colo, Jesus morria, sem atendimento médico, mas com um certo sorriso nos lábios ao perceber que era amparado pela mãe. Era meia-noite em ponto.

 

 
A festa de carnaval
Faz algum tempo que isso aconteceu. Eu ainda era adolescente, do tipo que se empolgava com as festas carnavelescas que ocorriam em Benjamin Constant. Na verdade, olhando daqui onde me encontro agora, percebo que eram um saco.  

A gente, eu, meu irmão, alguns colegas do bairro de Coimbra, outros mais chegados do centro da cidade, meio que ficávamos à frente do bloco que reunia a rapaziada da cidade. Uma rapaziada que nos parecia à época ser o que de melhor havia.  

Embora sendo bloco, tinha o lance de fazer uma espécie de samba-de-enredo para desfilarmos na terça-feira, num concurso geralmente organizado pela prefeitura. Num desses anos, resolvemos que os homenageados seriam as pessoas que por muito tempo animaram a cidade nas festas juninas, com a dança do boi bumbá. Eram elas: o Malaquias, o Terçado e o Sal.  

Lembro-me até de um estrofe do samba que ajudei a compor e que dizia assim: "Heróis do passado/ Com versos originais/ Sal, Terçado e Malaquias/ Grandes vultos imortais".  Por esses versos vocês podem ter uma idéia do ridículo que ajudávamos a apresentar na avenida 21 de Abril, a principal da cidade na terça-feira de carnaval. E era um ridículo, creiam, aguardado com ansiedade por muita gente.  

Chumbados
É lógico que, mesmo sendo adolescente, desinibido, eu, meus colegas e boa acho que quase a totalidade dos brincantes do bloco  Fuzuê - engraçado, como só agora me lembrei do nome da troça - desfilávamos todos chumbados.  

O que corria de garrafa de cachaça na área de concentração, antes de nós apontarmos na pista era brincadeira. Acho, no entanto, que naquele ano eu tomei umas goladas a mais da Tatuzinho. Enfim, eu que deveria ter saído na bateria, na última hora acabei tendo que substituir o mestre-sala - olha só que merda, até isso o bloco tinha - na última hora. E lá fui eu.  

Confesso que não estou me recordando o nome da porta-bandeira. Tinha alguma coisa Ildete, uma morena acho que um pouco mais velha que eu, mas bem animada e simpática. Fizemos tudo o que programamos - que era quase nada - na frente do local onde os jurados se encontrava - até isso havia - e seguimos adiante achando, e só nós na nossa ingênua bebedeira, que tínhamos feito o melhor carnaval daquele ano.  

E o pior ou melhor, sei lá, pra esquentar a folia era que o resultado saia no mesmo dia, por volta das 18h, quando passava o último bloco. Naquele ano, até o pessoal da rádio Nacional, de Tabatinga, esteve em Benjamin Constant cobrindo a festa.  

Exame
Pois bem, quando começaram a dar as notas - olha o ridículo aí de novo - começamos a perceber que não ia dar para o nosso bloco. Ah, ia esquecendo de dizer que, além de um troféu, tinha uma grana não sei de quanto, no meio, como premiação.  

Exaltados como estávamos, prevendo o final da apuração, eu e mais alguns colegas fomos ao local onde os jurados estavam, tomamos o microfone da mão do apresentador e nos danamos a desancar a comissão organizadora do evento. Agimos, estou convencido hoje, como uns autênticos ridículos.  

Mas aí tudo bem. A terça-feira de carnaval continuou. Meio desanimados, ainda assim esticamos a noite um pouco mais no Club 21 de Abril e só na madrugada, bem na madrugada, eu e meus amigos do bairro de Coimbra nos recolhemos à insignificância de nossas casas.  

Delegacia
Nem bem o dia amanheceu, mal deu tempo do delegado se recuperar da ressaca - ele também tinha tomado todas - fui abordado em casa por um policial, amigo meu, me convidando para ir até a delegacia, que ficava a pouco mais de 100 metros de onde eu morava.  

O mal-estar que me açoitava o corpo, de imediato, deu lugar a um estado de apreensão e vergonha. Até então eu frequentava a delegacia, mas como amigo dos soldados para  jogar bola na quadra de barro que ali havia.  

Lá fui eu. Lembro ainda do rosto de desgosto da mamãe ficando pra trás. Que ridículo! Cheguei à delegacia e encontrei um primo meu chamado Bolinha e uns outros que ali já estavam havia algum tempo.  

Com o bafo ainda forte de quem tinha tentado se livrar da ressaca tomando algumas logo de manhã, o delegado Petroso - só agora me lembrei o nome do dito - começou a perguntar se eu me lembrava de ter chamado o prefeito disso e daquilo que não cabe aqui comentar.  

Argumento
É lógico que falei que não. E, antes que eu complementasse com algum argumento fuleiro, Petroso disparou: "Vai dizer, como os outros já disseram, que estava bêbado e que não se lembra de nada disso, que um homem bêbado, perde o juízo,  fala coisas bêbadas e inconsequentes; coisas, que não diria em sã consciência".  

Diante de toda essa justificativa, o que mais eu diria? Balancei a cabeça afirmativamente e - que ridículo - me encostei à parede esperando a decisão de Petroso. Este, no entanto, optou por nos dispensar, fazendo a seguinte ressalva: "Vão e não falem mais besteiras, principalmente se não tiverem bebido nada".  

Ih, ia esquecendo de  novo de dizer que o delegado tinha um certo grau de parentesco comigo. Ademais, na noite de terça-feira, ele foi visto num escurinho do Club 21 de Abril tentando colocar na boca da garota que o acompanhava alguma coisa incoveniente.

 

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