Conttundidos
Todos os "conttundidos" aqui publicados, são de autoria de Carlos Branco e foram extraídos do livro homônimo editado em 1995 pela Universidade do Amazonas.
 

 
Não estou para ninguém, ainda que chova pingos de ouro
Andava desanimado com o curso de Comunicação Social. Tinha alguns amigos que se não fossem tão legais, nem por isso chegavam a ser boçais ou desajustados, como apregoavam alguns colegas dos cursos de Exatas. Entendia-os. Para estes, dois mais dois sempre seriam quatro, nunca vinte e quatro como adicionavam os colegas de Humanas.

Nunca fora chegado à exatidão. Apreciava uma boa discussão. Depois que fora introduzido em Antropologia, lá no segundo período, aprendera a cultuar a tal alteridade. Isto é, reconhecer no outro aquilo que ao outro é inerente. Mas o desânimo que sentia não era uma exclusividade sua. Talvez...

Chegou ao quinto período, divisor de águas do curso de Comunicação Social, claudicante. Optou por Jornalismo. Mais desânimo. E se perguntou: E daí? Raulzito diria: "Eu tenho uma porção de coisas para fazer e não posso ficar aqui parado..." Ele não tinha tanta certeza assim. Não através do jornalismo, ramo da Comunicação Social que escolhera para habilitar-se. Habilitava-se? Talvez...

Logo ele, que mais uma vez largara casa, emprego, que estava tão empolgado com a possibilidade de praticar a arte de bem informar. Na prática, já sentia saudades das aulas teóricas dos primeiros períodos ( de algumas, é claro; outras, socorro...pedreiras). De repente, era como se tudo tivesse caído num profundo marasmo. Talvez...

Talvez o problema estivesse nele que não se mostrava o suficientemente curioso, já que para exercer a profissão a curiosidade é um ingrediente favorável. É? Talvez...

Talvez fossem aquelas máquinas de datilografia (o seu amigo Zelão, o pescador, as faria de poita), que não colaboravam. Ultra...Passadas! Há quanto tempo não trocavam as fitas? Datilografava-se uma e outra pauta e a cor pálida das letras refletia bem o estágio em que se encontravam...Ele e o curso? Apenas ele? Apenas o curso? Não sabia ao certo. Talvez...

Mário Sérgio, o seu amigo e cunhado de Medicina, caso auscultasse as salas de Redação I e II urgentemente recomendaria um check-up geral, com direito à terapia intensiva e reciclagem de material...e "material". Eram até bonitinhas e confortáveis, mas precisavam adaptar-se aos novos tempos... tempos de informatização. Uma questão de interação.

Aliás, esse era um elemento que andava em falta no curso. Talvez...   Talvez isso justificasse...Talvez. Por isso, aplaudiu aquela saída audaciosa dum Pretexto qualquer. Melhor que nada vezes nada. Nadaria em vão? Talvez...

E, assim, Greg poderia ficar horas e horas adornando o seu desânimo em relação ao curso. Mas este era, naquele momento, menor que a tristeza que sentia pela perda dum amigo, que, como ele, também andava desanimado.

Jhobson vislumbrava horizontes maiores via curso de Comunicação Social. Achava-se um tanto quanto extrovertido, bem apessoado e cheio de outros detalhes que julgava serem convenientes ao exercício da profissão de jornalista. Seriam? Talvez...

Portanto, esforçara-se ao máximo para entrar na faculdade. Fez cursinho, estudou sozinho e, um dia antes de as provas serem realizadas, prometeu acender um pacote de velas a São...Bem, melhor seria prometer a todos. Prometeu? Talvez...

Veio o vestiba e ele não titubeou; respondeu tudo o que sabia e o que não sabia, chutou. Mas chutou ao que parece com a precisão de "São Romário". Quando o listão dos aprovados circulou, como manda o figurino, publicado nos jornais da cidade, não é que seu nome ele achou? Na letra J, o nome Jhobson Tancosos.

Emoção. Comemoração. Bebemoração. Comoção...Só não raspou a cabeça porque o gerente do banco onde trabalhava poderia não gostar. Ademais, pensando bem, esse negócio de desnudar a cabeça já não lhe parecia tão em voga. Talvez...

No começo do período, empolgado que estava com o curso, até pensou em largar o emprego para se dedicar tão-somente aos estudos. Mudou de idéia loguinho. Apesar do aconchego dos prédios, na prática, a universidade era tão sem graça quanto aqueles detalhes que, aparentemente, estavam em consonância com a natureza. Estavam? Talvez...

Pra completar, o chefe do Cadastro Geral do banco em que trabalhava o estava pressionando. Sim! Pressão. Porque empresa privada não é como empresa pública, não. Esta é a festa do cafezinho com torradas. Aquela, produção é o que o patrão quer e espera.

Porém, Jhobson não era nenhum alienado. Da mesma forma que necessitava do trabalho para se manter, achava-se no direito de desenvolver as suas potencialidades intelectuais. Havia algum mal nisso? Talvez... Aí veio, inevitavelmente, aquela história: o banco ou a universidade? Parede. Ultimato. Os dois, nem pensar. Quer dizer, talvez...

Não sabiam se por pressão do chefe do Cadastro Geral ou por agravamento do desânimo em relação ao curso, o certo é que Jhobson sumiu. Sumiu!? Talvez...

Sexta-feira da semana passada, lá por volta das seis horas da manhã, quando estava na parada de ônibus, Greg deu com o amigo chegando ao prédio onde morava. Definitivamente, Jhobson não estava bem. Era visível a sua tristeza; estava explícita dos cabelos ao tênis, que ele trazia amassado e arrastado ao chão. Aquela pedra chutada, então, deixava claro que também existia revolta.

Se não estivesse com o limite de faltas estourado, Greg ficaria para dar uma força ao amigo. Passou pela sua cabeça um mau presságio. O ônibus parou. Antes de subir, ouviu o amigo, insolentemente, recomendar ao porteiro: "Não estou para ninguém, ainda que chova pingos de ouro".

Naquela mesma manhã, antes do meio-dia, houve um princípio de incêndio no prédio em que Jhobson morava. Furiosamente o fogo se alastrou por vários apartamentos.

Estupefato, Greg se aproximou do cordão de isolamento feito pelos bombeiros, quase inermes, e pôde ver o apartamento do amigo, tragado pelo fogo, deixando vazar uma nuvens escuras de fumaça pelas janelas. Sentiu o chão fugir-lhe aos pés. Frações de segundo. Recuperou o sólido. Depois, encaminhou-se ao porteiro. Antes de indagá-lo sobre o que queria saber, teve a resposta que não queria ouvir:

- Ele não estava para ninguém, ainda que chovessem pingos de ouro – explicava o porteiro a uma pessoa desconhecida, que ele não se importou em reconhecer.

Esfalfado e mais desanimado ainda, Greg entrou em casa. Foi largando a mochila e os sapatos pela sala, trancou a porta do quarto por dentro, desligou o telefone e adormeceu. Será? Talvez...

 

 
Banho de Chuva
O morro. A nossa casa. A varanda, da qual dava para ver o movimento das pessoas lá em baixo, no cruzamento das ruas, bem como os urubus e outros pássaros menores que riscavam o céu naquele fim de tarde, limitado pelo beiral da cobertura, de onde os morcegos mais afoitos e não menos famintos já punham as asas de fora, em busca da refeição última crespuscular, da qual os insetos alados e inermes eram o alvo.

Logo o tempo fechou. A tarde encurtara. Bateu um vento gelado e saliente, despenteando as palmeiras e eriçando-me os pelos. Descargas elétricas e trovões vivificavam a chuva que se avizinhava.

Constipado, tossi pela primeira vez. Mamãe não me deu ouvidos. Quem bom! Não tive que entrar. Continuei na varanda. Os primeiros pingos d’água adentraram-na. Voltei a tossir. Mamãe continuou não se dando conta de mim . Por precaução abafei as tossidas seguintes com as mãos em forma de concha.

Lá, no cruzamento das ruas, os automóveis passavam céleres, de vidros levantados. Os transeuntes desprevenidos procuravam um abrigo na mercearia do seu Pitico um abrigo passageiro. Os que dispunham de guarda-chuva continuaram caminhando. O vento abrandara. A chuva, em seguida, caiu pesada.

Desviei o olhar e vi passando o Bilu, meu amigo de bairro e colégio. Estava só de calção e controlava nos pés uma bola seminova. Atrás dele passaram os outros meninos. Mais atrás, as meninas. Todos tinham a mesma direção e o mesmo endereço: a praça Frei Ludovico, ali na frente da igreja da Imaculada Conceição. Era lá que nos reuníamos e improvisávamos umas boas "peladinhas", mais pelo tombos do que pelo jogo em si, enquanto as meninas se divertiam na biqueira da Casa Maçônica, que produzia um fio d’água grosso – nossa cachoeira artificial.

Tossí amiúde. Mais uma vez mamãe não se deu conta de mim. Estaria ela em casa? Pelo jeito...Continuei na varanda.

Quando o Peleco passou, atrasado como sempre, senti vontade de saltar a varanda e acompanhá-lo, juntar-me aos demais meninos e esquecer as recomendações do doutor Melvino, que alertara a mãmãe para que eu não pegasse chuva nem tomasse nada gelado. Do contrário, a minha gripe descambaria para uma broncopneumonia.

Às favas com todas aquelas recomendações, pensei. O que eu queria mesmo era estar tomando banho de chuva, escorregando aqui e ali, feliz da vida. Porque das poucas diversões que tínhamos em Benjamin Constant, essa era uma delas. Depois, quando São Pedro recolhesse os pingos d’água, juntar-me-ia aos meninos e meninas e voltaria ao nosso bairro, sorridente.

E a volta às nossas casas, fim da nossa diversão na chuva, era tão ou mais gratificante quanto a ida ao encontro do aguaceiro. Nessa ocasião, entre nós, as meninas inundavam os nosso olhos de beleza e sensualidade. Molhadas, então, não tinham como esconder os seus contornos mais íntimos e provocantes, que a adolescência, caprichosamente, fazia aflorar. E o bom disso tudo era que, tal qual as rosas em botão, elas desabrochavam nos jardim do nosso bairro, Coimbra, bem pertinho dos nosso olhos.  

No entanto, naquele dia eu estava na varanda e ali permaneci, envolto num cobertor, tossindo sem parar e tentando entender por que os besouros se deixavam levar pela luminosidade do abajur dos postes, já que ali a morte os aguardava.

 

 
Menino Esperto
- Alguém achou uma nota de cinquenta reais que eu perdi aqui?

Devia ter uns seis anos. No máximo, sete. Tudo bem, oito e estamos conversados. Cara e jeito de menino carente. Na verdade, levado. O espírito lúdico que me envolvia naquele instante, induziu-me a fazer uma gracinha com o pequeno.

- Bem, se foi o que eu estou imaginando, sinto muito, já era. Gastei- o . Taqui o Augustinho – vendedor de bananas fritas – que não me deixa mentir. Tô mentindo, Augusto?

- O doutor não mente, nunca – asseverou Augusto.

O menino me olhou enviezado. Fingi desatenção. Daí a pouco o motorista do ônibus Campus-Aleixo entrou na conversa. Afastei-me. Fui procurar um lugar na fila do Campus-Tefé.

Já me tinha enfileirado, quando o menino entrou em cena novamente. A cara era de choro, misturando piedade e sofrimento. Reivindicava o suposto dinheiro perdido e olhava para mim.

Logo, alguns enfileirados, imaginando que de fato eu estivesse com o seu dinheiro, lançaram olhares de reprovação na minha direção. Peguei-me um tanto quanto constrangido. O espertinho, aproveitando a situação que lhe era favorável, repetiu:   Vumbora! Vou querer o meu dinheiro. Vumbora! Quero o meu cinquentão.

Àquela altura, ele já tinha visto as pontas de duas notas aparecendo num dos bolsos do meu jeans. O que o danadinho não sabia nem podia imaginar era que se tratava de um cédula de dez e outra de cinco reais, quase irreais. E, fingidamente, repetia:   Vumbora! Talí no teu bolso que já vi. Num quero nem saber, vou querer o meu cinquentão. Vumbora! Vumbora!

Ainda sem jeito, mas disposto a inverter a situação, interrompi-o:   Olha aqui, vou te mostrar o dinheiro que tenho no bolso. Veja bem, no bolso em que afirmas estar o teu cinquentão. Assim o fiz. A cara do moleque nem tremeu.

Passei a borboleta e fui assentar-me junto à janela, bem perto da cobradora. Saindo do estacionamento, logo na primeira curva, ouço aquela voz que há pouco me cobrava o dinheiro perdido:Home...Home...Ei, home! Olhei por trás dos óculos escuros, que eu usava para esconder as olheiras da insônia que me persegue há muito tempo, e dei com o menino sentado ao meu lado. Home...Ei, home! Dez reais também serve.

 

 
O navio esquisito
Desde que a plantação da Hevea brasiliensis surtira efeito lá pelas bandas da Malásia, os regatões tomaram chá de sumiço do rio Solimões.

Esquecidos nos beiradões desse rio, Zelito, Mundico e Zé do Quepe reuniam-se no terreiro da casa do véio Brandislau e deixavam-se ficar horas a fio velando a estrada d'água à sua frente, na qual troncos de árvores e bolas de capim canarana eram arrastados pela correnteza.

Em noite de lua cheia, a tristeza estampada em seus rostos ganhava um lampejo de alegria e esperança. É que por volta da meia-noite um objeto resplandecente subia majestosamente o rio e, inexplicavelmente, desaparecia à altura da Boca do Mauá.

"É, meus amigos, tá certo que os motô que cumprava as nossa borracha tinha lá umas poronga bunita, mas num se alembro delas alumiá tanto como as desse navio esquisito. É luz pra tudo quanto é lado, sô", comentava Brandislau, achando que o objeto resplandecente poderia ser uma versão moderna dos antigos regatões. Mas, por que não aportava em barraco algum?, perguntavam-se todos.

Tépidos e atochados de solidão, os dias morriam por ali. No seringal Esperança, o que as almas mais careciam era justamente de esperança. Tinham largado o torrão cearense na ilusão de encontrar dias melhores em terras amazonenses.

Uma vez que os regatões não davam mais sinal de vida, sentiam-se cada vez mais acabrunhados. Era de vê-los soturnos, engolindo a seco a desilusão com a goma elástica. Soçobravam a cada entardecer de rio deserto.

Zé do Quepe, que ainda acreditava na aparição dos regatões, continuava a sangrar uma e outra seringueira. Os amigos, não. Ficavam dias inteiros e parte da noite entregues àquela velação de rio. Pior era o seu Brandislau, coitado, que dera para perder a fome, o sono e, pelo jeito, não tardaria a perder o restinho de vida que possuía.

Certa noite, de lua cheia, tentado pelos amigos, Zé deixou-se espreitar também o Solimões. Meia-noite, magnetizado pela profusão de cores do objeto resplandecente que apontava, prometera a si mesmo que na lua do dia seguinte atravessaria o rio, pois era na margem oposta que aquela coisa luminosa passava mais perto.

Contando ser de fato um navio esquisito, Zé já fazia planos para o futuro: Amazonas, nunca mais!. Aquele restinho de noite, dormiu à prestação. O navio esquisito não lhe saía da cabeça.

Quando amanheceu, lá estavam os amigos, como sempre, no barranco, entregues ao ritual de todo santo dia. Nada impedia que uma hora dessas um deles se deixasse ir com os troncos de árvores e bolas de capim canarana. Apreensivo, Zé pensou em falar-lhes do seu plano. Apenas pensou. Se tudo desse certo, pregaria uma boa surpresa nos amigos. Imbuído desse propósito, à tardinha, atravessou o rio.

Até o clarão do objeto resplandecente surgir, travara uma briga infernal com os carapanãs. Meia-noite, finalmente, surgiu a coisa. Mais o clarão se aproximava, mais a ansiedade tomava conta de Zé, que não queria outra coisa senão pedir ao comandante da embarcação passagens para ele e os amigos até Manaus.

Agora, Zé já podia divisar os dois holofotes e a fartura de cores que se espalhava da proa à popa do navio. Eram luzes amarelas, vermelhas, azuis, verdes...Mais alguns metros e poderia abordá-lo. De repente, cruzes! O susto. O salto para fora da canoa. O barranco...

De volta ao seringal Esperança, Zé amargou uma semana de febre altíssima. Preocupados, os amigos trocaram por alguns dias o barranco pelo punho de sua rede.

 

 
Quarto-caixão
O quarto, morfético, onde ele apodrece cada dia mais um pouco é pequeno, tosco e soturno; um caixão cinério com direito a uma cama de casal (segunda companheira) e, como se fosse um de seus seios, um travesseiro (seu incansável guerreiro noturno), com o qual digladia até o alvorecer.

Tudo ali é funesto: o ar que respira; o módulo mal montado, onde peças de roupa já quase sem vida, vivificavam coisas passadas; um televisor em preto e branco, danificado; um rádio de pilha, esquartejado; dois criados surdo-mudos, mal utilizados; duas prateleiras de livros decifrados mecanicamente; um violão desafinado para os seus lampejos de resurreição; uma escrivaninha, donde registra - depois de assoprar a sujeira que os morcegos insistem em acumular no forro, principalmente nesses dias de primavera - os seus dias últimos de vida espitirual, já que a física, miasmática, encalhou como um barco em algum lugar, depois da tormenta.

É nesse ambiente sórdido e de constante escuridão (primeira e efetiva companheira), que vive. Escuridão irrigada interna e idiossincraticamente, desde um fim de tarde em que todas as suas ilusões primeiras diluíram-se em frustrações. E, para fingir resistência, agarrou-se a toda e qualquer forma de sobrevivência (essa estupidez humana)... hoje, cronificada.

A sobrinha, inocente, ainda cheia de vida, da porta da sua (al)cova pergunta-lhe:

- Cadê a minha mãe?

Um silêncio ensurdecedor separa a sua resposta da pergunta da sobrinha, que vasculha os seus olhos melindorsamente, enquanto ele a fita grossa e vagamente. Depois, bafeja o ar moribundo que lhe adentra os pulmões, traça em linhas retas o que obviamente estava errado e responde:

- A tua mãe morreu!

Porque não fazia idéia da morte, a sobrinha comenta:

- É uma pena, gostaria tanto de falar com ela.

- Por exemplo?

- Que a minha avó já aprontou o chocolate.

Quando a pequena escapuliu dos seus olhos, ficou a velar a sua irmã como se fora a si mesmo, perdido em pensamentos abjetos com gosto e cheiro de flor de cemitério. Em seguida, fechou a tampa e dormiu.

 

 
A entrada triunfal
Mês de junho: milho verde, mugunzá, canjica, pamonha, traque, bombinha, língua de velha, fogueira, quadrilha e outras danças folclóricas. As festas juninas.

Em Benjamin Constant começavam no dia 12, véspera do santo casamenteiro, visitavam ou outros santos do mês e findavam, em praça pública, com o cortejo dos bumbás Corre-campo e Estrela do campo.

Verdade seja dita: não havia uma comissão organizadora do evento, nem a formalidade dos jurados. Não. Conhecia-se o vencedor do cortejo final através das palmas do público. Ao perdedor restavam os apupos.

Nos dois últimos anos, sagrara-se vencedor o "contrário". Era justo que nós, brincantes do Corre-campo, estivéssemos contrariados; literalmente contrariados. Os meses haviam passado rápidos. Num piscar de olhos, quando menos percebemos, já beirávamos junho outra vez.

Então, prometemos a nós mesmos que naquele ano o vencendor seria o nosso bumbá. Para tanto, não bastava só capricharmos nos versos. Era preciso, se quiséssemos desbancar o "contrário", irmos além do simples argumento verbal.

Depois de muito conversar, chegamos à conclusão que o melhor que faríamos era inovar no visual dos nossos brincantes e do nosso bumbá. Certo! Mãos à obra.

As folhas de bananeira e açaizeiro, que antes vestiam as tribos indígenas, receberam tratamento especial. Nêgo Chico, Catirina, Gazumbá, Pai Francisco, os doutores Cachaça e da Vida, todos metidos em trajes novos. Os demais brincantes também.

Cuidado especial mesmo teve a fantasia do nosso amo-de-boi. Toda feita sob medida, era cheia de brilhos e adereços, acompanhada de um chapéu de abas viradas para cima onde foram colados pedaços de espelho. Uma vez fantasiado, João Besouro parecia mais a figura do Virgulino Ferreira, o Lampião.

Ótimo. Agora a nossa atenção se voltava para a feitura do nosso bumbá. E lá fomos nós, reconstruindo-o todinho. Começamos por substituir o antigo esqueleto por um mais leve, feito com ripas de cedro. Assim, o "miolo" ficaria mais à vontade para fazer as suas evoluções.

O capim que servia de enchimento também foi substituído. No seu lugar colocamos esponjas e algodão, tornando a cobertura o mais regular possível.

A cabeça e os chifres, antes de pau, agora eram originais, cedidos por um fazendeiro do lugar. No vazio deixado pelos olhos adaptamos duas bolas de gude.

Eta! O nosso bumbá estava ficando singular. Era pouco. Queríamos mais. Foi aí que alguém falou: "que tal ligarmos as orelhas, a língua, o cupim e o rabo do nosso bumbá a um terminal de linhas que, acionadas pelo miolo, juntas ou separadas, produzirão um efeito especial?

Claro! Fantástico! Brilhante! Foi uma ovação geral. Era o que nos faltava para concluirmos as tais inovações. Naquele ano a vitória seria nossa, indubitavelmente. O "contrário"que se contrariasse para o lado de lá, literalmente.

De fato, as inovações produziram nos brincantes um estimulo positivo. Estavam todos eufóricos. Todavia, acordamos que as manteríamos em segredo até o dia da nossa apresentação em praça pública.

O diacho é que isso não foi possível. Vazou e as autoridades de Benjamin Constant logo tomaram conhecimento e não se demoraram a exigir a presença de nosso bumbá em seus terreiros. Se dependesse só da gente...

Enfim, resolvemnos que a nossa primeira apresentação aconteceria no terreiro da casa do coronel Osório. Esse, conhecíamos bem, saberia nos recompensar com um boa gorjeta quando, simbolicamente, recebesse das mãos de algum brincante a língua (de pano) do nosso boi. Afinal, a rapaziada carecia sempre dum tapa na goela.

Com entusiasmo e afinco, ensaiamos todos os dias que antecederam a nossa apresentação na casa do coronel. Finalmente chegou a grande noite. Capinado, o terreiro estava uma maravilha. Dona Dadá, esposa do coronel, caprichara nas bandeirolas. Uma fogueira de quase três metros fora erguida pelos filhos do casal, Mário Sérgio e Danielle.

Assim que o frei Felipe encerrasse a missa, a dança começaria. O público que se aglomerou nas imediações do terreiro era grande. E comentavam: "dizem que o bicho mexe as orelhas", "não é só as orelhas, não; o rabo e o cupim também"; "custo a acreditar, mas dizem que até muge".

Quando os sinos da Matriz repicaram, sinalizando o final da missa, mais pessoas se juntaram para ver a nossa apresentação. Acontece que o terreiro da casa do coronel estava separado da rua por uma vala, obrigando-nos a fazer aquilo que chamamos de entrada triunfal. Fato que consistia em fazer com que o "miolo" transpusesse a vala sem tirar o bumbá das costas.

Era o que imaginávamos, não fosse um pedaço de pau atravessado por um prego de mais de duas polegadas, responsável pelo tombo do "miolo" e a consequente destruição do nosso bumbá, antes mesmo da festa começar.

 

 
O aniversário de Argemira
Desde cedo os compadres e comadres aportavam: cansados, suados, mas animados para a festança de aniversário de Argemira, filha única de seu Chico Borracha e Dona Maria Grude.

Chegavam todos em suas canoas de dois, quatro, seis ou mais lugares. Ninguém deixou de comparecer. Nem mesmo aqueles que moravam doze, treze, quatorze ou mais pontas de praia abaixo ou acima do seringal da debutante.

Pelo contrário, mesmo tendo que madrugar ou pernoitar no cabo do remo, deram o ar da graça. Era forrobodó pra alma alguma faltar. Duraria, como de costume, uns três dias e umas três noites. Festa no beiradão é assim.

A tarde caíra mansamente. A lua, imensa, boiou numa das dobras do rio Javari. Os convidados, já asseados, desfilavam em seus melhores trajes, encharcados de patchuli. Seu Chico não tardou a acender as porongas, enquanto dona Maria punha lenha no fogão de barro.

Argemira, a debutante, era pura distância. Nem mesmo o som da sanfona velha do Alberico, que chegava com algum atraso, fê-la despertar da letargia em que se encontrava. Distraída, escorada a uma parede da sala, deixava-se invadir por reminiscências de outras festas como aquela que os pais lhe prepararam.

Festas, por exemplo, como a de Anarminda, de Gestrudes, de Zefa e outras tantas meninas como ela ali do beiradão. E, pelo jeito, não eram boas lembranças. Na tela que só os seus olhos divisavam, mesmos vagos como pareciam estar, passavam cenas de um velho filme enredado pela sina de toda menina-moça do beiradão.

Na prática, isso significava que, uma vez debutada, não tardaria a aparecer um pretendente qualquer, com aquele jeito e cheiro dos muitos que ela conhecia e via, subindo e descendo o Javari, vez em quando.

E, se o pai concordasse com o pedido, o negócio era casar, gostando ou não do marmanjo. Sim. Casaria e aceitaria o marido com a mesma mansuetude com que levava a vida no beiradão: calma, paciente e conformada com os desígnios de Deus, o mesmo que a ajudaria a criar a filharada quando nascesse, ano após ano, até que a natureza se encarregasse de pôr fim à sua fertilidade.

Claro! Anarminda, Zefa, Gestrudes...não tinha sido assim com todas elas?

É, mas no fundo, bem lá no fundinho do coração, Argemira alimentava a esperança de que no seu aniversário tudo fosse diferente e especial.

Aí por volta das nove horas da noite, no assoalho da casa de paxiúba, devidamente encerado, compadres e comadres saracoteavam animados pela sanfona de Alberico. Enquanto isso, lá da cozinha, exalava um cheiro agradável de peixe assado.

De repente, a música parou e todos correram para perto do fogão de barro. Daí a pouco a trempe estava vazia, os convidados de barriga cheia, prontos para continuar o forrobodó. E tome arrastapé.

No seu vestido de chita feito especialmente para a ocasião, Argemira continuava absorta. Indiferentes ao seu estado, compadres e comadres dançavam. Mesmo desafinado, Alberico emendeva um xote atrás do outro.

Esquivando-se entre os convidados, Argemira deixou a sala e dirigiu-se ao terreiro. Ali fora o vento era pura frescura. Desfez-se dos sapatos que lhe apertavam os pés e pôs-se a caminhar na direção da prainha que a vazante trouxera à tona.

A prainha convidava-a a um passeio. Na verdade, passadas, tão minguados eram os seus grãos de areia. Aceitou. Depois, assentou-se num tronco de madeira e ficou a contemplar o céu, que mostrava uma lua bem menor, mas ainda soberana, entre milhares de estrelas que mais pareciam vaga-lumes acendendo e apagando as suas bundinhas.

Beirava a meia-noite. Como fizesse frio, Argemira abraçou-se ao próprio corpo para afugentá-lo. Debalde. O jeito foi disfarçá-lo mirando os banzeiros morrerem, sem muita pressa, nas areias encardidas da prainha. Afinal, a lua continuava linda e tudo era possível naquela noite.

Lá no barraco a festa esquentara de vez. Estática, tal qual um bibelô, Argemira dera-se a deambulações. Voltou a si ao ouvir passadas de gente ao redor. Assustada, espreitou de um lado e de outro, e nada. Atrás, nem vulto. À frente...eis que, saindo d'água em sua direção, surge um homem elegante, bem vestido, trazendo nas mãos uma rosa, à boca um charuto e na cabeça um chapéu de Panamá.

Ao deparar-se com o estranho, Argemira quis voltar ao barraco. Quem viu...Uma força muito mais estranha fê-la permanecer onde estava. Por um momento pensou que estivesse sonhando. Beliscou-se. Beliscou-o. Era um fulano, cheio de formosura e encanto, que começa a despestar nela desejos incontidos. Isso era diferente, falou para si mesma.

E foi ele afagar-lhe os cabelos, fazer-lhe um carinho no rosto e beijar-lhe os olhos, para ela entender que algo de especial estava a caminho. E pertinho. Então, quando ele, maviosamente, mordiscou-lhe os exíguos seios, ela, que desconhecia as tentações da carne, sentiu um fino fio de frio percorrer toda a extensão de sua coluna e ir aninhar-se bem no fundo de suas entranhas, deixando-a de pê-los eriçados. Voluptuosa, entregou-se.

 

 
Zelão Pescador
O céu amanheceu nu. Azul, como se fora uma imensa concha de safira. O negro dos urubus e o branco das gaivotas eram, na ausência de nuvens, as cores flutuantes que se fundiam à imensidão do teto terrestre. O sol também despertara tinindo. Verão! Época de peixe e da plantação na várzea.

Zelão engoliu apressado uns goles de café amargo, pegou o remo, a tarrafa pelo meio, pôs tudo nas costas e rumou para o porto. Já na canoa, alternando remadas, margeava o rio Javari pelo lado peruano de Islândia. Sabia ele, que a qualquer momento as gaivotas acusariam o itinerário de algum cardume.

Era domingo. O segundo de agosto. Dia dos Pais. Há um ano ele perdera o seu, mesma data em que se tornara um deles. Mais pelo aniversário do filho do que pela homenagem que lhe prestava o dia, convidara alguns amigos para almoçar em seu tapiri.

Pescava. Nisso era doutor. Não teria maiores dificuldades em fisgar uns peixes. Pelos seus cálculos, duas pirapitingas, dois surubins e alguns pacus bastariam. Meia dúzia de pessoas não comeria mais que isso, pensou.

A correnteza do Javari não o esmorecia. Já tinha enfrentado outras piores. Quando conhecera Elvira, voltando duma pescaria, não imaginou que uma semana depois remaria quase três dias e três noites para revê-la. Os braços até amofinaram, mas o diacho do coração era irredutível no seu querer.

E ele remava, remava...tarrafeava, tarrafeava e nada. O céu continuava azul. Azuladíssimo. O sol, cada vez mais empinado. Observou-o e calculou as horas: quase nove. Continuou remando até alcançar a praia do Pacu. Aliás, resto do que fora uma praia. E de pensar que ainda teve um vereador de merda que disse que a natureza se recompunha...

Ali dera mais alguns lances. Nada vezes nada de peixe. E as gaivotas? Por onde andariam? Murmurou algo para si mesmo e pôs-se a abrir a latinha de tabaco. Tabaco enrolado, passou o papelinho nos lábios umedecidos. Cigarro feito, acendeu-o e entregou-se a sucessivas baforadas. Aqui e ali, uma cusparada n'água: festa das piabas.

Se quisesse poderia continuar enfrentando a correnteza, até alcançar a praia de Santa Clara. Olhou para trás e viu que não carecia afastar-se tanto do seu tapiri. Atravessou o rio e passou a margeá-lo no lado peruano de Petrópolis, a favor da correnteza. Assim ficou mais à vontade para tarrafear. Fazia-o e nada. Começou a ficar preocupado. Cuspiu o restinho de cigarro n'água deixando as piabas em alvoroço.

Voltou a fitar o céu. O sol, pela altura, dez e meia. O que pensariam os amigos se ele voltasse para casa sem peixe? Não era doutor em pescaria. Mergulhou a cuia no farto líquido que sustentava a sua canoa e tomou umas boas goladas dele. Diacho, por onde andariam as infelizes das gaivotas? E os malditos dos botos?

Conduzido pela correnteza, Zelão deixou para trás a Laminadora Amazônica, fábrica de compensados. Quando deu por si estava próximo à Boca do Mauá. Não gostava desse local, porque além da carga mística que o envolvia também era panema. Isso sem falar na tal da cobra grande que ali habitava. Mas já que estava ali, o vão da canoa vazio, resolveu arriscar alguns lances.

Lance vai. Lance vem. E nada de peixe. Que droga! Ao largo, naquele instante, voltava para casa um pescador conhecido. Ao vê-lo, Zelão gritou: "peixeeeee?". Do outro lado veio a resposta: "nem fresco, viaaaaado". Como não entendeu a última parte da resposta, tomou-a como salgado.

O sol agora tostava a moleira de Zelão. Olhou-o por olhar. Sabia que passava das onze, quase meio-dia. Trouxe a cabeça para posição normal. Encandeou-se. Quando recobrou a visão não tinha mais as pirapitingas, os surubins e os pacus na mente. Para ser sincero, já se contentatia com algumas sardinhas e outros peixes menores. Sim, por que não? Àquela altura, apelava para São Pedro uma ajudinha que fosse.

O papelinho novamente envolvendo o tabaco. Os lábios umedecendo o papelinho. As sucessivas baforadas. As cusparadas, para a festa das piabas. E peixe que era bom, nada. Zelão chegou a duvidar da sua habilidade de pescador a ponto, inclusive, de simular o alagamento da canoa, caso não pescasse nada.

O suor que lhe escorria da testa e ardia nos olhos, juntou-o ao odor das mangas da camisa. Depois, mergulhou novamente a cuia n'água e matou a sede. com ela, aquela idéia idiota de canoa alagada por um casal de boto no cio.

Uma, duas, quatro, quarenta vezes seguidas tarrafeou. Nada de peixe. De repente, as gaivotas. Poucos metros à sua frente, como colibris, suspensas no ar, batiam asas, paradas, para em seguida e certeiramente flecharem a superfície das águas, de onde arrancavam peixes.

Reanimado, Zelão remou para lá. Se o lance fosse como estava imaginando, voltaria para casa imediatamente e ainda alcançaria os amigos, que o ajudariam a desemalhar os peixes da tarrafa.

Ali onde as gaivotas mergulhavam, arrumou com carinho a tarrafa, cravando os caninos entre duas chumbadas e jogando uma parte do instrumento de pesca no ombro esquerdo. Em seguida, balançou-a para lá, para cá e chuá...abertinha.

Nem bem as chumbadas se tocaram no fundo d'água, sentira a corda da tarrafa tremer. Bom presságio. Com cuidado recolheu uma braçada, duas e parou. Um bom e experiente pescador não leva muito tempo para descobrir o tamanho do peixe que fisgara. Com Zelão não fora diferente.

Quando pressentiu o que acabara de "ensacar", esbravejou: malditos, filhos da puta. Furioso, por pouco não corta a corda amarrada ao punho e deixa a tarrafa afundar para sempre, sem meio àquela cantilena de barco roçando em cais: reco-reco, reco-reco, reco-reco...

À boquinha da noite aportou em casa. A lua já era senhora. Escalou o barranco, os degraus do tapiri e atirou-se na sala. Fadigado, só pensava em dormir e esquecer aquele dia azarento. Entrementes, Elvira foi até a cozinha e trouxe de lá dois copos, uma garrafa de cachaça e um prato com calabresas assadas. "Presente dos amigos", disse ela.

 

 
Caldeirada de bodó
Era costume do Zé Prego não deixar o fim de semana passar em branco. Patusco de primeira grandeza, mal morria o expediente, encostava-se ao relógio de ponto e articulava com os colegas o plano para o domingo, que entre eles tinha sobrenome: domingo do Austide, domingo do Adilson, domingo do Andrade e por aí afora. Salvo alguns contratempos, o domingo do Adilson era o dia em que o pagode aconteceria no quintal de sua casa. Ou na varanda, como preferisse.  

Como sempre, mataram a sexta-feira ali no Bar do Bira. Próximo ao hospital da Fundação Nacional de Saúde, onde trabalhavam. Ratificaram o acordo no sábado, no mesmo bar, entre uma e outra partida de sinuca, valendo um copo de cerveja. Perdeu. Bebeu. Domingo, todos na casa do Adilson.  

Um trago. Um bago de limão com sal. Para adornar o ritual, caretas e muita conversa fiada. Mais tarde, já sob os efeitos colaterais das doses de cachaça, falaram de amores passados, futebol, religião, política e trabalho na FNS.   

Detiveram-se na Política por um bom punhado de tempo. Estavam envolvidos em fórmulas e conjecturas, propondo saídas simples para a solução dos problemas nacionais e internacionais, quando foram interrompidos:  

- Posso entrar? indagou Chico Pileque, já dentro do quintal.  

Não sabiam se exótico definiria bem o comportamento de Chico. Tinham-no como um pachola, isso sim. Tomava tudo quanto era bebida, mas dizia que não comia isso nem aquilo. Muito cheio de frescura. Macrobiótico, dizia-se.  

- Claro, homem, atraque seu barco neste porto e junte-se a nós. A casa é sua - retrucou Austide.  

Chico agradeceu a acolhida e correu os olhos nos pratos. No fundo, queria mesmo era saciar a fome. Como não dera nem mais com as moscas, interpelou o amigo:  

- O que temos para comer, Austide?  

- Tínhamos, já era. Agora, só pinga. A menos que você aceite um bodozinho assado. Vai?  

- Tudo bem que estou com fome, mas isso não significa que eu vá saindo por aí comendo qualquer coisa. Bodó não é aquele peixe que vive enterrado na lama, também conhecido como chuteira?  

- É. É ele mesmo. E daí?  

- Nem pensar. parece-me sujo, imundo e nojento. Qual é? Tá pensando o quê? Sou macrobiótico.  

- Oh, não me diga. O bodó pode ser isso tudo e mais um pouco, mas é gostoso pra burro.  

- Todos, menos esse peixe.  

- Pelo que eu sei, Chico, comes carne de porco.  

- É verdade, mas não sei o que uma coisa tem a ver com a outra.  

- Tudo. Os dois, por exemplo, gostam de lama.  

- Peraí, Austide. Não vamos confundir til com tição.  

- Ora, Chico, não me venha com trocadilhos. Achar que porco é melhor que bodó só mesmo sendo coisa de tição.  

- Sem racismo, meu. Realmente o porco é muito melhor.  

- E é.  

- Quem te garante isso, Chico?  

-  Basta olhar nas festas de aniversário, batizado... não me consta que nessas ocasiões sirvam bodó.  

- Não servem porque não conhecem as delícias da carne desse peixe.  

- 'nheca, que nojo!  

Austide interrompeu a conversa gastronômica que estava tendo com Chico para tomar um trago. Depois, retornou à conversa:  

- Nojo, né Chico? Sabia que na ração balanceada que dão aos porcos adicionam esterco de galinha?  

- Não me diga uma coisa dessas. O Austide lombrou de vez, gente.  

- Porra nenhuma, Chico. Falo isso em sã consciência. É que conheço um avicultor, que também cria porcos, que faz exatamente o que estou a lhe dizer.  

- Endoidou. Pessoal, o Austide endoidou de vez.  

- Vatifu, Chico. Acredite, vi a mistura com esses olhos aqui bem arregalados.  

- Não. Por Deus que esse avicultor não teria coragem de fazer um negócio desses.  

- Deixe Deus fora dessa ração balanceada, Chico, por favor.  

- Austide, você não vê que o avicultor mataria seus porcos. Titica de galinha, não!  

- Já vi que de nutrição você não entende merda nenhuma, Chico.  

- Você só pode estar me gozando...  

- Quanta ignorância. Lá, Chico, esterco de galinha não se perde. Quanto não vai na ração balanceada, entra no adubo orgânico utilizado pelo avicultor no pomar.  

- Tudo bem, Austide. Digamos que você esteja falando a verdade e que esse avicultor esteja coberto de ração, quer dizer, razão. Ainda assim prefiro o porco ao bodó.  

- Falas isso porque nunca provastes de uma caldeirada de bodó.

Chico Pileque até já estava disposto a pôr um ponto final à conversa sobre o bodó, mas ao ouvir que comiam esse peixe também cozido em água, comentou:  

- Caldeirada?!  

- Meu filho, deixo só os esqueletos. Feito com bastante cheiro verde, chicórea, tomate, cebola de palha, pimentão e pimenta de cheiro não há quem resista. De quebra, um molho de tucupi com um pirãozinho. Humm... isso me dá água na boca.  

A mulher de Austide, que até ali ouvia a conversa dos dois sem nada comentar, entrou em casa e foi parar na cozinha. Hora e meia depois a caldeirada de bodó estava pronta. A brisa que entrava pela janela da cozinha e vazava para o quintal, encarregou-se de anunciar o cheiro da iguaria. Ao sentí-lo, Chico perguntou:  

- O que é isso? Que cheiro mais gostoso...  

Antes de deixar a casa de Austide, farto de caldeirada, Chico perorou:  

- Sabem de uma coisa? Não sabia que o porco desse peixe era tão gostoso assim. Já me convidei para uma outra patuscada, posso?

 

 
João, caçador de veado
João Caçador de Veado é que era dos bons. Com ele não tinha esse negócio de dia da caça e outro do caçador, não. Uma vez que entrava no mato não saía de lá sem a sua presa favorita: o veado, animal silvestre apreciadíssimo pela gente benjaminense, tanto pela maciez, quanto gostosura da carne.  

Último de uma estirpe eminentemente caçadora, herdara todos os conhecimentos de seus antepassados. Sabia auscultar a natureza. Imitava com perfeição vários bichos e não se espavoria diante duma pintada ou qualquer dessas entidades das matas, fosse ela o Curupira, a Mapinguari...  

Com habilidade e certas simpatias, safava-se dos infortúnios que pudessem lhe suceder durante as caçadas. Ninguém como ele conhecia tão bem as veredas dos matos por onde andava e não se espavoria em abrir outras. Nunca fora de fincar espera num só lugar. Por onde passava construía jiraus.  

João era, de fato, do tipo que causava inveja como caçador. Por um bom punhado de tempo, fora ele quem provera Benjamin Constant com os frutos de suas caçadas, dividindo com os pescados do seu Sebastião Brito, a preferência popular. Até que um dia...  

Bem, naquele dia João não deveria ter entrado no mato. "Onde já se viu caçar na Quinta-feira Santa?" resmungara a mulher. Sim, ela entendia que faltava o que comer em casa, mas ele não podia guardar aquele dia como o Pai fez: jejuando? Por que aquela cegueira em caçar. Meu Deus, se quisessem, poderiam recorrer à ajuda dos peixes pescados pelo compadre Sabá. Tinha o marido que entrar no mato? Não sabia o que acontecera ao compadre Irarão, que saíra para caçar na Quinta-feira Santa e até aquela data nunca mais voltara? Diziam até que ele vivia atazanando a vida dos outros caçadores. Queria ele também passar o resto da vida assombrando os outros? E os filhos? Pensasse um pouco neles.

De nada valeram os rogos da mulher. João arrumara a espingarda 16, os cartuchos, a lanterna, o facão e rumara para o mato. Deixou para trás o choro morimbundo dos filhos. Não se preocupassem, quando alvorecesse estaria de volta com o paneiro cheio de carne de veado. Descansaria. À tardinha, acompanharia a procissão pelas ruas da cidade. Durante a missa, pediria perdão ao Pai.

Enluarada a noite fazia do vão da floresta uma freta por onde vazavam o brilho e a voz da bicharada. Era por esse cenário que João caminhava com o cuidado redobrado. Pior do que a assombração do compadre Irarão, seria pisar perto de uma jararacuçu.  

A árvore era a mesma de tantas esperas e espreitas. Onde o caule desgalhava, ali estava o jirau já bastante desgastado. Nem bem havia se acomodado, uma rajada de vento o açoitara. Custava-lhe acreditar, mas podia jurar que ouvira pronunciarem o seu nome. E, pelo timbre da voz, parecia a do compadre Irarão.  

Medo não sentiu. Afinal, aquela era a sua vida. No fundo, sentia-se tão bicho quanto os que caçava. Ademais, a mata tinha lá dessas coisas. Não lhe daria ouvidos. "Compadre, volte para casa enquanto é tempo". Estaria ele ouvindo coisas ou era tudo fruto da sua imaginação. Arrepiava-se por quê? acendeu um cigarro e deu umas boas baforadas. O vento que soprava, lhe ajudou a tragá-lo.

Remoía na sua cabeça as palavras agourentas da mulher e o choro morimbundo dos filhos quando ouvira galhos e folhas estalarem ao redor. Alertou-se. A espingarda, devidamente engatilhada, pronta para o disparo. Perscrutou a área e nada. Mais uma vez ouvira aquela voz que há pouco recomendava que ele voltasse para casa enquanto era tempo. Não. Não faria isso. Não se entregaria aos mistérios da mata.  

Acendeu mais um cigarro. Em meio às baforadas, aquela rajada de vento. Estranho, as árvores ao redor não se moviam. Ih...pra completar, sentia-se sonolento. "Compadre, não durma. Volte para casa enquanto é tempo..."  

Dois cortejos marcaram a Sexta-feira da paixão em Benjamin Constant.

 

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